Sempre encontrando conexões no seu cinema na cidade portuária de Torre Annunziata, ao sul de Nápoles, Alessandro Cassigoli e Casey Kauffman usaram como peça central no docudrama “Californie” (2021) uma miúda marroquina-italiana que tinham descoberto no seu documentário sobre boxe feminino “Butterfly” (2018). Presentes em Veneza, em 2024, com “Vittoria”, a dupla encontra agora numa cabeleireira de “Californie” (2021) a inspiração para a história de uma mulher já com três filhos homens, que deseja, acima de tudo, ter uma filha mulher. Usando no processo fílmico a estética de cinema verdade que os caracteriza, muitas vezes associado ao estilo documental, a dupla volta a dar a Torre Annunziata a forma de uma personagem, sentindo-se a representação da região mais autêntica do que qualquer outra que vimos sair, por exemplo, do armário burguês, de olhar a partir do terraço, do cinema de Sorrentino.
Mas não existam enganos: “Vittoria” é um relato verdadeiro, com enormes liberdades tomadas que o fazem entrar na ficção, apoiada por não atores, com Marilena ‘Jasmine’ Amato a assumir o papel de Jasmine, uma cabeleireira casada e com três filhos homens, que entra numa espiral obstinada de adotar uma menina, seja em Roma ou na Bielorrússia, convencendo o marido carpinteiro, e os seus filhos, alguns já bem crescidos, dessa intenção.
A obstinação desta mulher cria sentimentos de ambiguidade, pois quando ela descobre que no seu país não pode escolher o sexo da criança que quer adotar, o desejo de juntar à família um elemento no feminino soa mais a “fetiche” e desejo egoísta, que qualquer sentimento de altruísmo num sistema burocrático. Porém, o arco narrativo da história esclarece as intenções desta mulher e dá-nos acesso ao seu interior, esbatendo-se progressivamente a resistência paterna à adoção, num terceiro ato tão devastador como terno, capaz de fazer soltar as lágrimas de forma imparável. Se um filme fosse um meme, este seria “I’m not crying, you’re crying“”.
Filme de objetivos complexos, mas concretizáveis, de uma mulher numa faixa etária que a 7ª arte não costuma acompanhar a não ser quando estão envolvidas ao barulho questões românticas, profissionais ou de saúde, “Vittoria” é um dos filmes mais acessíveis da dupla Alessandro Cassigoli e Casey Kauffman, que consegue fundamentalmente fazer um estudo aprofundado de personagens: de um lado Jasmine, uma mulher independente que transmite uma imagem permanente de força, mas que tem nela vulnerabilidades e fragilidades naturais; e Rino (Gennaro Scarica), marido de aspecto rude e intransigente, que revela um coração enorme no momento certo das decisões, seja na assunção dos seus deveres em apoiar a mulher na sua demanda, seja no abrir uma nova carpintaria, em Capri, sem que a decisão passe pelo resto da família.
Nisto, temos um dos filmes mais tocantes do festival, sem manipulações óbvias, exploração sentimental a céu aberto ou fetichismos do real. E tudo com o selo de produção de Nanni Moretti, que impressionado com o trabalho anterior dos cineastas decidiu embarcar nesta doce, mas pedregosa viagem ao mundo da adoção e de uma mulher em tumulto.




















