Desde que lançou “Madame Satã” em 2002, Karim Aïnouz tornou-se um dos cineastas mais interessantes do panorama brasileiro. “O que me interessa no cinema é falar da intimidade”, dizia ele há 20 anos, algo que se refletiu ao longo da sua carreira, que teve como mais recente capítulo “Motel Destino”, estreado em Cannes este ano com o epíteto do “filme mais sensual” do festival. Pura ilusão de marketing

Motel Destino” marcou o regresso a Cannes de um cineasta que no ano anterior surpreendeu com uma encomenda bem negra, e conseguida, em língua inglesa, “Firebrand”, contando com Jude Law e Alicia Vikander em estado de graça nas suas atuações. Antes disso, Karim foi brilhando com maior (A Vida Invisível; O Céu de Suely; O Marinheiro das Montanhas) ou menor (Praia do Futuro; Abismo Prateado) fulgor, mas sempre impressionando pelo seu olhar de “intimidade” e arrojo a cada novo projeto. “Motel Destino”, muito por culpa do seu marketing, além da escolha desastrada de um dos elementos do triângulo amoroso que apresenta, Iago Xavier, acaba por encaixar na constelação do Karim “menor”, não sendo, contudo, uma oportunidade completamente desperdiçada. Mas vamos por partes…

O cinema em geral sempre deu bastante atenção a triângulos amorosos e no Brasil isso não foi exceção. Dos clássicos como “Dona Flor e os seus dois maridos” aos filmes mais recentes de, por exemplo Sérgio Machado (que escreveu com Karim e Marcelo Gomes “Madame Satã“), primeiro em “Cidade Baixa”, depois em “Rio do Desejo”, esses triângulos amorosos, por natureza, nunca se encerravam em meras lutas por afetos, mas expandiam a sua área de ação para falar de condições sociais e políticas da região ou país em que se inserem, além de produzir retratos geracionais. Ao escolher as paredes de um Motel – que no Brasil tem um significado quase exclusivo como espaços recatados onde casais vão para copular durante algumas horas – Karim parece querer mostrar um país que reprime os seus desejos, mas exercita-os com requintes excêntricos longe dos olhares opressores alheios. Porém, desta vez o cineasta fracassa e logo naquilo que se “vende”: o de fazer um filme “sensual”. Sexo existe em “Motel Desejo”, e em boa quantidade, mas a carnalidade e erotismo que se apregoa é, na melhor das hipóteses, demasiado morna para o espectador sentir qualquer tipo de real tesão. Não ajuda, como referi antes, a atuação de Iago Xavier, perdido numa personagem repleta de clichés, e nunca encontrado, ou sem uma direção clara, nos confrontos – quotidianos ou transgressores – com Nataly Rocha, o seu objeto de desejo, e Fábio Assunção, o rival que lhe estendeu a mão que ele está prestes a morder.

Esteticamente saturado de cores garridas que tanto acentuam os vermelhos como os azuis, consoante o estado de espírito das personagens e a atmosfera que se condensa, “Motel Desejo” joga sempre com a forma artificial da sua estrutura “hoteleira” encerrada perante uma paisagem natural ainda selvagem, jogando no processo com a própria natureza das suas personagens, também elas presas entre o instinto e o artificial construído para mera sobrevivência.

No final, não sendo completamente uma perda de tempo, “Motel Destino” tem melhores intenções que resultados, e serve melhor como fantasia que realidade. Tal qual uma ida ao motel.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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