Uma década após sua passagem pela Quinzena dos Realizadores, com “O Abismo Prateado”, dois anos depois da conquista do Prix Un Certain Regard, com “A Vida Invisível”, as malas de Karim Aïnouz vão estar arrumadas para viajar para Cannes novamente, entre 7 e 14 de julho, quando ele promete arrancar lágrimas com o seu novo documentário “O Marinheiro das Montanhas”.
Um mês antes de o cardápio cannoise ser divulgado, o C7nema conversou com o realizador por conta da sua experiência como jurado no Festival de Moscovo, numa conversa que acabou descambando para a sua cartografia de memórias argelinas. O projeto é um diário de viagem, filmado na primeira ida de Karim à Argélia, país em que o seu pai, o médico Majid, nasceu. Entre registos da viagem, filmagens caseiras, fotografias de família, arquivos históricos e trechos de super-8, a longa-metragem opera uma costura fina entre a história de amor dos pais do cineasta, a Guerra de Independência Argelina, as memórias de infância e os contrastes entre Cabília (região montanhosa da África) e Fortaleza, cidade natal de Karim e da sua mãe, Iracema.
Passado, presente e futuro entrelaçam-se numa travessia on the road pelo mundo.
Qual é a génese deste projeto que vai a Cannes, em relação às suas memórias da Argélia?
É um filme de viagem. É também, uma espécie de “memoir“, numa jornada de reconhecimento. Um “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”. É um filme sobre a relação de amor entre os meus pais, a partir de uma caixa de slides com imagens deles, no Colorado, nos anos 1960, e de uma viagem de barco que faço de Marselha até Argel. De certa forma, a minha mãe, Iracema, está comigo como se fosse uma colega de viagem imaginária.
Como se estruturou esse romance entre eles?
A minha mãe estudava algas. Ela conheceu o meu pai, Majid, nos EUA, e viveram uma história linda, até que ele voltou para a Argélia, em 1965. Ela retornou para o Ceará grávida, como a Guida de “A Vida Invisível”. Ela nunca mais casou e ficou no Brasil onde me criou com a minha avó. Esse título, “O Marinheiro das Montanhas”, faz referência a elementos característicos dos dois. Ela estudava o mar. E ele vem de um lugar montanhoso, onde neva.
Você abordou a realidade argelina de hoje também em “Nardjes A”, que passou na Berlinale em 2020. Mas o que aquele país representa para você, como cultura?
Argel foi uma espécie de Cuba de África, um lugar de cultura efervescente, para onde os Panteras Negras foram. Sinto que essa jornada deixou-me mais educado sobre o mundo. Quis correr o risco que a maturidade e a experiência permitem, num trabalho documental que nasceu artesanal. Antes de tudo, é um risco artístico ao distanciar-me do que sei, abrindo o projeto ao inesperado. Há o risco também de me ver enfrentando as minhas origens, a minha identidade, descobrindo de onde venho.
De 2011 a 2020, você viveu uma década de consagração internacional como poucos diretores latinos experimentaram, indo da Quinzena de Cannes para a disputa pelo Leão de Ouro, até ter o prémio Un Certain Regard nas mãos. Como essa travessia de dez anos espelha o que se viveu no Brasil nos anos 2010?
Foram anos muito especiais para mim, mas para o cinema brasileiro como um todo, por terem representado um momento de maturidade, no qual fazer cinema parecia ser um ofício e não uma aventura que dependia de dinheiro que não se sabia de onde viria. Nos anos 2010, tínhamos editais que garantiam uma diversidade. O prémio que “A Vida Invisível” ganhou é, em parte, resultado desse trabalho de amadurecimento que se fez, para se criar uma estrutura de produção.

