Condenado a 8 anos de prisão, Mohammad Rasoulof abandonou o Irão nas vésperas do início do Festival de Cannes, evento onde o seu mais recente filme, “The Seed of the Sacred Fig “ teve a sua estreia mundial.

Crítico acérrimo da opressão no seu país, já algumas vezes encarcerado e proibido de filmar, Rasoulof tem usado o seu cinema como arma para denunciar os mais variadíssimos problemas sociais e políticos no Irão, como se viu no excecional “O mal não existe’, onde através de um conjunto de histórias pessoais e familiares, de pessoas forçadas pelo seu vínculo laboral ou militar a matarem em nome do estado, faz um ensaio dolorosos, mas reivindicativo, contra a pena de morte.

Esse tema, o da pena de morte, é também abordado aqui neste “The Seed of the Sacred Fig’, já que estarmos perante um investigador recentemente nomeado pelo Tribunal Revolucionário, com ambições em ser juiz, que no dia a dia tem de assinar sentenças de morte, sem sequer ler as notas sobre is casos e sem questionar. Esse homem é Iman (Misagh Zare), que vê o novo cargo como uma bênção e uma forma de ascender socialmente e proporcionar uma vida melhor à esposa, Najmeh (Soheila Golestani), e às duas filhas, Rezvan (Mahsa Rostami) e Sana (Setareh Maleki), estudantes (uma universitária, a outra no liceu) com ideias e amizades no seio progressista.

Com novas responsabilidades dentro da máquina castradora da República Islâmica do Irão,  também as tensões e obrigações de recato na vida pública passam a ser uma imposição para a família, tanto para o patriarca como para a esposa e filhas, que têm de controlar melhor a sua exposição, em particular nas redes sociais, mas também nas ruas, não caíndo na tentação de dispensar o hijab e cair nas malhas das brigadas da moral. 

O problema é que no auge dos protestos violentos em torno da morte, sob custódia policial, de Mahsa Amini (1999-2022), uma jovem detida por uso “indevido” do hijab, as filhas deste homem vão servir de gatilho para o homem entrar numa escalada de paranoia, especialmente quando a sua arma de serviço desaparece e ele começa a desconfiar de todas as pessoas com quem habita, incluindo a esposa, que tem no seu arco narrativo uma travessia de um dos campos para o outro, sem qualquer opção na matéria.

Pontuando o filme com vídeos reais dos protestos de 2022 para cá, num estilo que faz lembrar Spike Lee (Chiraq; Blackkklansman)  Rasoulof introduz notas documentais num trabalho de ficção que usa uma família de classe média como símbolo e alegoria de uma nação, em que o patriarca desconfia de tudo e todos, e está preparado para fazer o que for preciso para preservar a sua carreira e ambições.

Poderosíssimo na sua dimensão política e social, “The Seed of the Sacred Fig’” não se livra de problemas na composição cinematográfica da sua escalada ao inferno da paranoia, particularmente quando a família sai da cidade e Iman começa claramente a descompensar. É que numa estrada a caminho da região em que cresceu, para escapar a eventuais problemas depois do seu nome e morada serem divulgados publicamente, o encontro da família com duas personagens, que acusam o homem de ser um carrasco, soa artificial e over the top, o mesmo acontecendo com os momentos finais do filme, onde do thriller psicológico passamos ao filme de horror pastiche, seguindo-se os seus maiores clichés e regras. Exagerando neste finale, na busca de um clímax para a resolução do impasse em relação a quem tem a arma, e como a paranoia nos vira contra os “nossos”, Rasoulov descarrila dramaticamente, mas consegue, ainda assim, interpretar e replicar as brutalidades do regime dentro de uma casa e no seio de uma família.

E nisso, ao jogar entre o coletivo e o individual, consegue mostrar uma nação refém de si mesma e das suas posições hierárquicas e privilégios. Só isso mantém o regime e será por aí que ele vai ruir, tal qual as casas que vemos na área onde Iman cresceu e derradeiramente se refugiou.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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