Azedou a relação do público – mesmo a ala nerd – com os filmes de super-heróis, como apontam os fracassos sucessivos de títulos baseados em BDs, lançados recentemente. A resposta pode vir, em parte, de um aforismo do sociólogo Jean Baudrillard: “Nada desaparece pela escassez, mas, sim, pelo excesso”. É um facto: desde “Blade” (1998), com Wesley Snipes, a indústria adotou os comics sobre vigilantes mascarados como uma aposta certa. A adoção errou na dose: ampliou-se em demasia a oferta de personagens com superpoderes. A oferta superou a demanda, como se viu na pálida receita de “Black Adam” (2022). Era um potencial blockbuster, com uma estrela de carisma indelével (Dwayne Johnson), mas não arrecadou o que se pretendia. As suas cifras baixas ligaram uma luz de alerta, que voltaram a piscar com “Quantumania”, de 2023, até dispararem de vez com “Marvels” e “Aquaman and The Lost Kingdom”, dois fracassos irreparáveis para os cofres dos seus estúdios. Os números raquíticos frearam o filão, mas não impediram que filmes previamente gestados (e finalizados) procurassem um escoamento, como se vê agora com “Madame Web”, uma produção de 80 milhões de dólares. Até ao encerrar desta crítica, publicada duas semanas depois da sua estreia, as suas receitas não passavam de 78 milhões de dólares, o que corta os planos para uma futura franquia, mas não deve, de modo algum, jogar na sucateira da História as múltiplas qualidades da longa-metragem de estreia de uma prolífica realizadora de séries: a inglesa S.J. Clarkson.

É mais preciso classificar a película como um thriller de suspense (de tintas fantásticas) do que como superaventura Marvel padrão, uma vez que S.J. (responsável por episódios de “Dexter”, “Doctors” e “Life on Mars”) foge dos chavões de combate típicos das transposições de banda desenhada para os cinemas. É uma estrutura dramatúrgica de fuga, mais próximo de referências de Brian De Palma (há muitas alusões a “Blow Out”) e a “Dead Zone” (1983), de Cronenberg, do que aos Irmãos Russo (que filmaram os últimos tomos de “Avengers”). O clima de escapada frenética da trama livra-se da trivialidade hollywoodiana no acabamento visual dado pela cineasta, na aplicação dos efeitos visuais na montagem e na sinergia com a direção de fotografia de Mauro Fiore.

Carisma de Dakota Johnson preserva a potência dramática de uma personagem secundária da banda desenhada do Homem-Aranha

No universo pop da Casa das Ideias (apelido da Marvel entre leitores), o parente mais próximo da dinâmica estrutural dramatúrgica de “Madame Web” é a série “Jessica Jones”, da qual S. J. foi colaboradora. Em ambas, há uma aposta em figuras femininas angustiadas com os dotes sobre-humanos que adquirem. É pena que, diferentemente desse produtor serializado, a fita da Sony Pictures, protagonizada por Dakota Johnson, dimensione pouco as camadas afetivas da sua protagonista, para além dos dilemas trazidos pelas habilidades inusitadas que descobre ter. O mesmo problema se estende ao fascinante vilão Ezequiel Sims, uma sinistra figura nas revistas em quadradinhos, confiada por S.J. ao ator Tahar Rahim (“Un Prophète”). O seu perfil, em cena, é assustador, numa linha similar ao de o Predador, isto é, trata-se de uma imparável entidade que persegue as presas, por instinto, sem se deixar debelar por percalços. Mas pouco se explora sobre as suas metas e motivações.

A heroína na versão gráfica da Marvel

S. J. faz o que pode para imprimir conflitos humanos na ciranda sinestésica de adrenalina que extrai do guião de Matt Sazama, Burk Sharpless e Claire Parker, estruturado a partir de uma secundária das BDs do Homem-Aranha. A Madame Teia nasceu em novembro de 1980, nas páginas da revista “The Amazing Spider-Man” n°210, sob a pena do argumentista Denny O’Neil e sob os desenhos de John Romita Jr. Cega.Ea é portadora de uma doença neurológica chamada myasthenia gravis, que, embora limite os movimentos, aferroando-a a uma cadeira especial proporciona-lhe poderes psíquicos e o dom da clarividência. Essa habilidade deu-lhe os veios de saber a identidade do Aranha, sem nunca trair o seu alter ego, Peter Parker.

Em “Madame Web”, num enredo ambientado em 2003, essa mulher clarividente, Cassie, é uma paramédica de Nova Iorque, colega de Ben Parker (Adam Scott), o tio de Peter (o Aranha). Ao sofrer um acidente de quase morte, ela desperta para o favto de que consegue prever o futuro. A possibilidade de ver o que pode acontecer, faz com que ela proteja um trio de jovens: Julia Cornwall (Sydney Sweeney), Anya Corazon (Isabela Merced) e Mattie Franklin (Celeste O’Connor). As três são cobiçadas por Ezequiel, que vê nelas uma força latente, ligadas ao signo místico da Aranha Primordial. Sem habilidades de luta, mas com extrema sagacidade, Cassie faz o que pode para ajudar as mulheres, num mosaico de correrias, misticismo e sororidade, ancorado na inteligência cénica de Dakota. Ela injeta humanidade num jogo de gato e rato, ou melhor, de gato, rato e aracnídes.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
madame-web-suspense-na-teia-emaranhada-das-bdsO parente mais próximo da dinâmica estrutural dramatúrgica de “Madame Web” é a série “Jessica Jones”, da qual S. J. foi colaboradora