O movimento #metoo arrancou em 2017 com todo o vigor nos EUA após o escândalo Harvey Weinstein fazer as manchetes de todo o mundo. Desde aí, muito impulsionado pelas redes sociais, este verdadeiro tsunami contra o assédio e abuso sexual atravessou fronteiras, chegando a França com uma ramificação materializada com o  #balancetonporc, que além de ter servido para muitas vítimas se juntarem a outras para denunciar agressores, questionou o próprio patriarcado, particularmente a dita classe intelectual, libertando velhos fantasmas como o caso Roman Polanski. 

A verdade é que o cineasta francês-polaco, que suscitou violentos protestos na noite de entrega dos Césars em 2020, talvez seja o mais famoso desses casos em terras gaulesas, mas levou a uma nova mirada a outros casos, como o de Gabriel Matzneff, um aclamado escritor francês que não só manteve relações pedófilas, como chegou a falar disso nos seus romances, sendo protegido (ou não incomodado), não apenas, mas fundamentalmente, pela ala intelectual francesa, na eterna tradição do separar o homem da sua obra e manter o culto às figuras femininas, vulgo musas, que inspiram autores.

A reviravolta no caso Matzneff, que levou a um verdadeiro escrutínio global no mundo das editoras, começou após Vanessa Springora lançar em 2021 o livro “O Consentimento”, um relato pessoal devastador sobre como foi a musa adolescente (de 13 anos) de um dos escritores mais célebres do seu país. Mais do que revelar um caso “imoral” e “criminal”, a autora – com quarenta anos quando lançou o livro – focava muita da sua atenção na questão do “consentimento”, ou seja: pode uma criança de 13 anos – com os instrumentos e ferramentas psicológicas que possuiu – decidir sobre  o manter ou não uma relação amorosa e sexual com um adulto?

Ora, essa questão foi parcialmente diluída na transposição para o cinema que Vanessa Filho fez do livro, transmitindo-se com maior fulgor a dimensão manipuladora e calculista de Matzeff, mimicado ao mais ínfimo pormenor por um Jean-Paul Rouve que certamente será nomeado aos prémios do cinema gaulês. O certo é que, quer o livro, quer o filme, com focos diferenciados, conseguem produzir o mesmo efeito: capturar e encerrar um predador dentro de uma obra.

Esteticamente carregado de uma imagem granulada e repleto de close-ups – que de certa maneira não só datam os eventos no passado, como nos transmitem uma sensação de sufoco – “O Consentimento”, o filme, não consegue escapar a diversos estereótipos no retrato do predador, perdendo fulgor em relação à sua versão literária. Veja-se, por exemplo, quando Rouve ia ter à escola de Vanessa e olhava para ela de forma robótica e assustadora, uma situação que no filme nos afasta de certa maneira de um ponto essencial: como é possível uma jovem de 13 anos se apaixonar por aquela figura? Serão através das palavras e manipulações, que a própria Vanessa Filho transferiu do livro, além da reflexão sobre a escassa atenção que a criança tinha no ambiente familiar, que encontramos na nossa mente a sugestão de explicação. 

Habituada a lidar com temas problemáticos no conjunto da sua obra (veja-se “Primitifs” ou “Gueule d’ange”), Vanessa Filho consegue agarrar no livro de Vanessa Springora e dar-lhe uma dimensão cinematográfica essencial para a era que vivemos (de supremacia da história em relação à força da imagem), mas colocando lado a lado os dois relatos, livro e filme, o fulgor, horror e valor da obra literária é superior, mesmo que Rouve e a impressionante Kim Higelin se juntem para dar um espetáculo de atuação.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
o-consentimento-a-morte-do-romantismo-na-palavra-musaColocando lado a lado os dois relatos, livro e filme, o fulgor, horror e valor da obra literária é superior, mesmo que Rouve e a impressionante Kim Higelin se juntem para dar um espetáculo de atuação.