Desde o lançamento de “La Haine”, em 1995, que o julgamento das pessoas com base nas aparências e origens tem tido particular atenção pelo cinema gaulês. Filmes de Ladj Ly, “Os Miseráveis”, ou “Athena”, de Romain Gavras, têm adensado as discrepâncias existentes e trazido à luz atritos, já considerados históricos, entre a polícia e os moradores dos bairros periféricos de Paris. Do lado de Marselha, acontece o mesmo, principalmente com Jean-Bernard Marlin a responder com “Shéhérazade” (2018) e “Salem” (2022) a filme do ponto de vista dos policias como “Nord Bac”, de Cédric Jimenez.
É carregando o peso do banlieue, onde a paisagem urbana e o tecido social, fruto da criação de bairros sociais dos anos 60, 70 e 80 criaram uma guetização, que Sébastien Vaniček cria o seu “Vermin”, um série B clássico onde aranhas mortais atacam os habitantes do complexo imobiliário Arena Picasso, projetado pelo arquiteto espanhol Manuel Núñez Yanowsky em 1981 e inaugurado em 1985, em Noisy-le-Grand, arredores da capital francesa.
De um preâmbulo no deserto, que nos faz lembrar o início de o “Exorcista”, a uma loja de bairro gaulês que nos remete a “Gremlins”, “Vermin” entra rapidamente em modo “Aracnofobia” num local que parece ser a resposta francesa a “Attack The Block” de Joe Cornish. A grande diferença aqui é que o filme britânico tinha no líder da batalha contra os invasores, Moses (John Boyega), um elemento carismático que juntamente com os amigos formam um batalhão compacto contra o terror.
Ao invés, e com exceção do ator convidado (Finnegan Oldfield) e da sua personagem, todas as outras neste “Vermin” estão minadas de clichês, refugiam-se em atitudes pouco claras (para não dizer imbecis), além de carregarem personalidades pouco aprofundadas pelo guião. A começar por Kaleb (Theo Christine), que vive com a irmã, Manon (Lisa Nykaro), na casa que a falecida mãe lhes deixou. Kaleb tem o que se pode chamar um trabalho precário e mantém uma paixão não tão secreta como desejaria: tem um verdadeiro zoológico no quarto, onde acumula insetos, anfíbios e répteis. Emocionalmente frágil, como se vê nas conversas na irmã sobre o legado que a mãe deixou, ele parece pouco recetivo a abandonar o local onde cresceu, não tão diferente da personagem principal de “Gagarine”, outro filme de género francês que se sustentava na arquitetura dos subúrbios (neste caso, um complexo desaparecido em Ivry-sur-Seine, nos arredores de Paris) para, através de uma fantasia espacial, alimentar as discrepâncias entre os habitantes locais e o poder que os oprime. E, em comum, também os protagonistas carregam sonhos que parecem inatingíveis para estas gentes “do bairro”.
É, porém, a partir da aquisição de uma estranha (e letal) aranha, na tal loja obscura do seu bairro, por parte de Kaleb, que nasce uma infestação que ameaça o complexo urbanístico, colocando em perigo todos os habitantes e visitantes do local. Se acrescentarmos a isto uma quarentena imposta ao edifício pela polícia, então temos a receita perfeita para o desastre, tudo num filme que joga principalmente com o medo comum de aranhas que muitos espectadores têm para criar um jogo de sobrevivência entre quatro paredes – que se vão transformar cada vez mais claustrofóbicas e mortíferas à medida que a infestação avança.
O resultado final é um curioso filme de entretenimento, que poderia e devia ter encontrado menos clichés e lugares comuns para falar das armas de opressão sociológicas, como “Gagarine” ou “Attack The Block” o fizeram. Ao invés, não atinge nenhum ponto nevrálgico que inspire reflexão social ou até emocional, servindo apenas para um passar do tempo agradável para os fãs do género, mas efetivamente descartável depois disso.




















