Atrevido, iconoclasta e infalível na sua mistura de ação com humor, sem descambar para as parvoíces que se vê em Taika Waititi, o primeiro volume da franquia “Guardians of the Galaxy” – lançado em 2014 – foi um balão de oxigénio para os pulmões dos filmes de super-heróis, que já sustentavam a indústria, mas começavam a dar sinal de cansaço, a julgar pelos tropeções na saga “X-Men”. A arrecadação milionária, estimada em 773 milhões de dólares, provou que a Marvel poderia alcançar sucesso – e até se libertar de certas amarras – apostando em personagens de menor popularidade, regressados sobretudo do baú das narrativas espaciais da década de 1970, anteriores à estreia de “Star Wars”. Aí, em 2017, veio um segundo volume, reforçado pela participação especialíssima de Sylvester Stallone como o mercenário Stakar e pela escolha de Kurt Russell como o vilão. A faturação da marca subiu – 863,7 milhões de dólares– e a sua inteligência (nos diálogos e na estrutura do guião) também cresceu. Mas aí veio a força da ceifa chamada de “Politicamente Correto”, que derrubou o idealizador, o cineasta James Gunn, que quase foi cancelado por posts hostis escritos no passado. Veio o binómio empresarial Warner + DC e convocou a sua força de trabalho para repaginar Suicide Squad, criar séries (a genial “The Peacemaker”) e repensar os novos caminhos para Superman. Enciumada e ciente de que perdeu um dos seus melhores quadros para a sua rival n.1, por culpa de moralismos, a Marvel trouxe Gunn de volta e deu-lhe tudo o que podia para fazer um réquiem para a super equipa de desviados que singra as estrelas à cata de sustento e de emoção. Mas a sua volta não foi feliz. Perdeu-se a picardia sem freios das longas-metragens anteriores, a figura de vilania – o geneticista Alto Evolucionário, vivido por Chukwudi Iwuji – não ameaça ninguém, e a premissa de base – a possível morte de Rocket Raccoon – é estendida ao limite do enfado.

Tudo coincide com o apocalipse que se deposita sob os céus da Marvel. Depois do (injusto) desdém popular por “X-Men: Fénix Negra”, em 2019, lançado ainda sob a égide da Fox, a editora de banda desenhada mais famosa do mundo acreditou estar imune ao afastamento do seu público, cativado por Thanos na franquia dos Vingadores. A aposta numa repaginagem na sua linha editorial para a sua produção audiovisual, adequando-se aos pleitos políticos dos discursos identitários e de lutas da correção política, viraram uma bandeira para o sistema “marvete”, promovendo a absoluta diversificação nos seus quadros profissionais (sobretudo com a bem-vinda contratação de realizadoras de talento, como a oscarizada Chloé Zhao) e nas suas personagens. Foi inegavelmente uma escolha acertada e ajustada a padrões éticos de uma sociedade que clama por um futuro de equidade. Só que um erro foi cometido pela chamada Casa das Ideias (apelido da editora entre quem lê BDs): a crença de que o aumento do humor, nas suas narrativas, diluiria as queixas contra o excesso de violência nas tramas, provocou estranheza, incomodo e até repúdio nos mais fieis espectadores. Basta ver a rejeição à série “She-Hulk: Attorney at Law” e uma redução brutal na venda de bilhetes dos seus últimos potenciais blockbusters: “Thor: Amor & Trovão”, de Taika Waititi, e “Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania”. O primeiro arrecadou 760 milhões de dólares, quando se esperava 1,5 mil milhões. O segundo, lançado este ano, naufragou em 474 milhões. Nem “Pantera Negra: Wakanda Para Sempre” arrecadou o que se aguardava dele, com o clima de luto pela morte de Chadwick Boseman e a torção de nariz para as escalações de Letitia Wright (Shuri) e Tenoch Huerta (Namor).

Diferentemente do baile de carnaval que “Quantumania” é e do pavoroso último “Thor”, o terceiro volume de “Guardians of the Galaxy” sabe a hora certa de soltar as suas piadas. Mas as que solta não carregam mais a rebeldia dos filmes anteriores e existem muitas tiradas repetidas. Existe um clima interessante, logo no arranque, no tom mais funesto da sua trama. Nela, os heróis chefiados por Peter Quill (Chris Pratt, sempre preciso) vão encarar uma arma estelar de destruição em forma (super-)humanoide: Adam Warlock, vivido por Will Poulter, ao mesmo tempo em que tentar salvar a vida de Rocket e deter o avanço do Alto Evolucionário. Mas a maneira como a realização de James Gunn explora Warlock (uma personagem solene nos comics) resume-se a uma galhofa secundária. Atores que integram o núcleo central do elenco, como Dave Bautista, o guerreiro Drax, não escondem uma indisfarçável preguiça de retomar o papel do vigilante, sem que ofereçam qualquer evolução. Até a banda-sonora se repete.

Visualmente, a fotografia vai muito além da média dos filmes da Marvel e a montagem ainda consegue se encaixar bem na linha de reviravoltas contínuas no script. Mas não saímos disso.

A fim de buscar saídas, a Marvel quer agora que as suas lobras tragam marcas autorais na realização, entusiasmadas com o trabalho excecional de Sam Raimi em “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, que contabilizou 956 milhões de dólares e se banhou em elogios em críticas de todo o planeta. Não por acaso, confiou a direção do que pode ser um épico feminista, “As Marvels”, com Teyonah Parris (no papel de Monica Rambeau), Iman Vellani (pra ser Kamala Khan) e Brie Larson (regressando ao uniforme de Carol Danvers), à talentosa Nia DaCosta (“Candyman”). Espera-se também que algo digno de um fenómeno pop brote do trabalho de J. C. Chandor (realizador de “Margin Call”) à frente de “Kraven, o Caçador”, um derivado das bandas-desenhadas do Homem-Aranha. Olheiros da indústria atestam que o ator Aaron Taylor-Johnson (de “Kick-Ass”) está em estado de graça na pele do predador russo Sergei Kravinoff, que viaja aos EUA para caçar criaturas inusitadas, entre eles o vilão Rhino, confiado a Alessandro Nivola e, quiçá, a Venom. Na BD, “A Última Caçada de Kraven”, lançada em 1991, é considerado um marco de excelência dramatúrgica.

Gunn não salvou a pátria desta vez.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
guardians-of-the-galaxy-vol-3-na-nebulosa-da-preguicaA maneira como a realização de James Gunn explora Warlock (uma personagem solene nos comics) resume-se a uma galhofa secundária