O fascínio obcecado de Jonás Cuarón em transformar uma potencial ameaça num amigo inseparável, tal qual Steven Spielberg o fez com o clássico “E.T. O Extraterrestre”, mina a sua mais recente longa-metragem, “Chupa”. O mexicano, que tinha dado nas vistas não apenas numa curta-metragem (Aningaaq) ligada a “Gravidade” de Alfonso Cuarón (o seu pai), teve em “Desierto” (2015) uma proposta muito mais madura, segura e competente, navegando entre o drama, o filme político e a ação.

Em “Chupa” (título que em português pode gerar várias piadas), o mexicano pega na lenda do Chupacabra, a criatura mítica no folclore das Américas, para nos entregar um coming-of-age de aventuras que se foca na história de amizade entre um bicho felpudo, que mais aparenta um lince com asas, e um rapaz que vive nos EUA, mas que regressa às origens para passar tempo com o avô, um antigo “luchador”, e com os primos.

Se este é também um objeto ligado à descoberta das raízes e a valorizá-las, estando a cultura mexicana em foco nas segunda e terceira gerações de migrantes, rapidamente o filme se transforma num objeto que procura ser tenso e onde não falta um vilão: Richard Quinn (Christian Slater), um homem obcecado em provar que os chupacabras existem e com isso ganhar proveitos económicos a partir dos seus alegados de poderes de cura. E logo na primeira cena do filme, que tanto podia sair de a “A Múmia” como de “Indiana Jones”, Quinn mostra as suas garras capitalistas através de uma figura – na aparência – claramente inspirada em Sam Neill de “Jurassic Park”. Um poster desse mesmo filme no quarto do nosso pequeno protagonista,  Alex (Evan Whitten), mostra essa ligação de Cuáron ao cinema de Spielberg e como nesta sua aventura nos terrenos no streaming ele procura mimicar o espírito juvenil da Amblin.

Claro está que com este jogo de obsessões/homenagens tudo se revela derivativo. E embora em cena surjam ações e personagens diferentes, o cheiro a cópia de “ET” situada no México impregna a atmosfera, sendo o espectador mais experiente abalroado por inúmeras sensações de déjà vu e vastas doses de lugares-comuns.

Por isso mesmo, à parte dos miúdos que nunca viram o filme de 1982 e dos graúdos com uma eterna nostalgia acrítica pelos filmes que marcaram as suas infâncias, “Chupa” tem muito pouco de interessante (e nada de novo) para oferecer. No final, tudo se resume apenas a mais uma reciclagem algorítmica da Netflix, para ver e esquecer num ápice.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
chupa-a-sombra-de-e-t-o-extraterrestreO fascínio obcecado de Jonás Cuarón em transformar uma potencial ameaça num amigo inseparável, tal qual Steven Spielberg o fez com o clássico “E.T. O Extraterrestre”, mina a sua mais recente longa-metragem, “Chupa”.