O filme Paixões Recorrentes“, da brasileira Ana Carolina Teixeira Soares (1949-), reconhecida pela qualidade do seu cinema e pelo olhar crítico sobre as relações de poder da sociedade, foi exibido no dia 9 de outubro no DocLisboa na Secção Riscos – realizadores convidados, e poderá ser visto no Cinema Ideal no dia 11 as 22h.  Teve a sua estreia foi no Festival de Cinema de Roterdão e em salas de cinema do Brasil em agosto, distribuído pela O2 Filmes.  

Ana Carolina filma desde os anos 1960, mas há dez anos que não realizava filmes. Os mais conhecidos da sua carreira são “Mar de rosas(1977), “Das tripas coração(1982) e “Sonho de valsa(1987).

Após a exibição do filme no DocLisboa, houve um debate e a realizadora relatou o que a levou a realizar esta obra:  “Imigrantes que perdem um lugar e não encontram outro lugar, tentam se enraizar, mas nunca ficam», e declarou se sentir como as personagens da narrativa ficcional que construiu. 

A sinopse, traz o seguinte contexto: No dia, ano, em que se inicia a Segunda Guerra Mundial (1939), o mundo à  beira do abismo, um grupo de pessoas discute o estado do mundo em um pequeno bar, em uma praia sul-americana, longe da frente de combate. Neste remoto banco de areia, defendem as suas ideologias e as debatem na nova realidade.  

Apesar disto, o filme poderia se passar em qualquer época ou lugar, pois a única marca que podemos intuir o tempo do filme é um velho navio que ancora na Ilha trazendo um português e o figurino de algumas personagens. 

Filmado com recursos da ANCINE (Agência Nacional de Cinema), dos raros filmes que conseguiram financiamento, recursos públicos nos últimos 4  anos no Brasil, período do governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, que declarou publicamente o abandono da chamada Sétima Arte, ao ponto de ter recolhido, em 2019, as chaves da Cinemateca Brasileira, da memória cinematográfica do país, por mais de um ano. Somente com a pressão de cineastas, outros trabalhadores e instituições do cinema, a nível nacional e internacional, é que a Cinemateca foi reaberta.

Filmado no inverno, com luz predominante cinza-prateada, o que descaracteriza o encanto de uma ilha paradisíaca e atraente como a Ilha do Mel, o filme com a duração de 100 minutos foi realizado com uma pequena e frequente equipa, filmado durante 26 dias numa única locação, a belíssima Ilha do Mel, no Estado do Paraná, no Brasil.

Nas personagens do filme, encontramos um argentino fascista, rigoroso inspetor governamental, chamado Chango (Luciano Cáceres), que controla a entrada das poucas pessoas que chegam de barco ou navio à ilha; um casal português, Amada (Silvana Ivaldi), que deixou o seu país para escapar de uma desilusão amorosa causada pelo namorado, o capitalista Raolino Pombal (Pedro Barreiro), que vai até o Brasil  à  sua procura e, conforme ela, é um mentiroso por vocação; um brasileiro, negro, exótico, chamado Beleza (Iran Gomes), um bon vivant, que se envolve afetivamente com a rapariga portuguesa; uma elegante cantora-artista trotskista francesa (em idade madura) e decadente, Madame Arras (Théresé Cremieux), que sonha voltar a ter sucesso na Europa, e é enganada por um suposto empresário brasileiro (da mesma idade), interpretado por Luiz Octávio Moraes, um típico malandro do Rio de Janeiro; e o proprietário do único bar da praia, uma esplanada simples, mas acolhedora, Souza (Danilo Grangheia), amante da poesia de Gonçalves Dias, comunista e consumidor diário de cachaça, tal como todos os outros que passam o tempo no seu estabelecimento. 

Embora estejam no bar do Souza ou na praia, a câmara acompanha-os, sempre em movimento e é raro ver um plano fixo. Eles estão confinados à ilha, junto ao mar, a beber e a discutir, cada um na sua própria língua, as suas paixões recorrentes, conversam sobre política, partidos e ideologias da extrema direita e da esquerda, antagónicos, fracassados ou ressurgentes, sobre os seus sonhos e desencantos, sobre “o estado do mundo” e o deslocamento físico e mental em que se encontram num país tropical. Tudo numa terra em que no plano da realidade é devastada pelas políticas e atos catastróficos do atual governo, referências que no filme podem ser ouvidas nos diálogos: “O que há no Brasil é o poder da polícia” e “Este país que flerta com os nazistas“. 

Terra onde a maioria das personagens não pertence, mas na qual se sentem ao mesmo tempo à deriva, supostamente seguros e distantes da Segunda Guerra Mundial, onde podem falar das suas intimidades e dos problemas da vida em sociedade, conscientes de que as suas ideologias foram ultrapassadas. Deslocados de si próprios e das suas culturas, os estrangeiros errantes nem mesmo mudam de roupa, tentam adaptar-se a este não-lugar, sem terem qualquer garantia de que sairão de lá ou de como será o futuro.

Pontuação Geral
Lídia Ars Mello
Jorge Pereira
paixoes-recorrentes-o-regresso-de-ana-carolina-teixeira-soaresAna Carolina Teixeira Soares (1949-), reconhecida pela qualidade do seu cinema e pelo olhar crítico sobre as relações de poder da sociedade, regressa com uma trama de época numa terra que no plano da realidade é devastada pelas políticas e atos catastróficos do atual governo brasileiro