Ana Carolina Teixeira Soares: “O Brasil vem vomitando ostensivamente sucessivas ideologias”

"Paixões Recorrentes" faz parte da programação do Doclisboa

(Fotos: Divulgação)

Incluída com destaque na lendária edição de 2019 da revista Cahiers du Cinéma dedicada só a mulheres realizadoras, Ana Carolina Teixeira Soares desbravou as Américas e o Velho Mundo com a trilogia “Mar de Rosas” (1978), “Das Tripas Coração” (1982) e “Sonho de Valsa” (1987), consagrando-se como uma cronista da hipocrisia nas relações sociais. Sem lançar filmes desde 2014, com “A Primeira Missa”, a cineasta – que integrou o júri oficial da Berlinale em 1978, ao lado de Sergio Leone e Theo Angeopoulos, quando Ruy Guerra e Nelson Xavier ganharam o Urso de Prata com “A Queda” – voltou a ser desafiar brios, via Roterdão. O seu novo filme, “Paixões Recorrentes”, integrou a mostra Harbour, do evento holandês, cuja 51ª edição decorre online. Ela regressa cercada por uma equipa de peso. No elenco encontramos Thérèse Cremieux, Luciano Cáceres, Pedro Barreiro, Silvana Ivaldi, Danilo Grangheia, Iran Gomes e Luiz Octavio Moraes. Na trama, um grupo de pessoas, de diferentes nacionalidades, discutem o estado do mundo numa pequena praia no sul do Brasil, no dia que marca o início da Segunda Guerra Mundial. É num bar de uma praia sul-americana que um comunista brasileiro enfrenta um capitalista português; um fascista argentino bate boca com uma atriz francesa trotskista. Neste remoto recanto de areia, todos eles defendem as suas ideologias que foram superadas pela realidade. Os paralelos com a ascensão contemporânea das ideologias extremistas no Brasil (e no mundo) são difíceis de ignorar. A teatralidade exulta neste conto alegórico. A trama foi filmada por Ana Carolina na Ilha do Mel, uma reserva natural na Baía de Paranaguá.

Na entrevista a seguir, a realizadora conta ao C7nema os detalhes da sua dramaturgia e a escolha da sua trupe multinacional.

Paixões Recorrentes” parece ser um filme de época sem época, pois aquela década de 1930, pré-Guerra, poderia ser o Brasil do Bolsonaro. O que sustenta tal “eternidade” dessa trama e de que maneira a ideia de “ideologia” gravita na cabeça daquelas personagens?

Nos primeiros quinze anos do século XX, Augusto Comte comandava os corações e mentes do exército e da elite brasileira. E no mínimo desde 1937, no Estado Novo, o Brasil vem vomitando ostensivamente sucessivas ideologias (primeiro come, depois vomita) e quem não tem onde se agarrar, agarra-se em ideologias! Tem gente que prefere se agarrar em amores impossíveis.

Paixões Recorrentes”

Qual é o lugar da solidão na sua obra? Do desterro? Uma obra com personagens em conjunto, em choque, em colisão.

É o desamor de cada governante ao seu povo! A solidão individual não vem ao caso…ela é inerente às circunstâncias. Quando o governante não governa com amor…vive-se em desacerto com a realidade. Todos os governantes dizem que “amam o Brasil”. Se amassem, não estaríamos do jeito que estamos! Temos um dos maiores índices de desamor do planeta.

É brilhante a esgrima que você trava na relação da palavra e da imagem. Fala-se muito, como num filme de Renoir, mas ao mesmo tempo a imagem amortece o verbo, dando-lhe sulcos, reentrâncias, respiros. Como é que essa dinâmica se estabelece do roteiro à montagem e o quanto o trabalho com aqueles atores contribuiu para isso?

Não sei até hoje como o cinema mudo conseguia, de facto, transmitir emoções…tirando o abraço, o beijo na boca ou um corpo morto esticado na calçada… As emoções se utilizam de imagens oníricas que não me interessam. É a palavra acoplada à grande tensão física (desejo de matar ou desejo de amar) que é capaz de atingir o espectador. Simplificando… é o desejo que comanda!

Como é que este elenco, sobretudo Luiz Octavio e Grangheia, atores de forte matriz teatral, foi montado?

Uma das minhas especialidades é escolher um elenco compatível com os meus sentimentos. Sendo assim: escolhi a força desordenada do Pedro Barreiro, que já havia trabalhado comigo no A Primeira Missa. A personagem da Amada é um ser vibrante, com pouca respiração, que passa a vida fugindo das mentiras, como quase todas as mulheres. A atriz Silvana Ivaldi domina com segurança a força e a fragilidade. Luciano Cáceres, o meu querido argentino, que como todos os argentinos, traz com ele o desejo oculto de uma luta assassina. E, para tanto, tem que exercer sua minúscula autoridade. Chango é isso. A Thérèse Cremieux foi capaz de construir a decadente atriz Madame Arras em luta com a idade e a sobrevivência, sem abrir mão do tédio e da gélida certeza de que é um ser superior. Iran Gomes revelou o Beleza, brasileiro de alma transparente, cuidadoso com a vida e com a natureza. Nunca perdeu a delicadeza. E os seu amor atingiu de forma certeira o coração de Amada. O Danilo Grangheia fez uma rápida temporada no Teatro Poeira com uma peça chamada O Palhaço e a personagem dele não tinha texto. Na saída, fui falar com ele: “Você vai fazer meu próximo filme, porque eu entendi tudo o que você estava sentindo!”. Grangheia viveu um Souza integralista cheio de dores contraditórias! Luiz Octavio, o Empresário, surge na reta final da escolha do elenco. Realizei um ensaio corrido, praticamente às vésperas da viagem e a sua atmosfera teatral me arrebatou…era um escroque bem-comportado. Bingo!



Qual é a imagem de II Guerra que a sua geração construiu (ou introjetou) a partir do cinema e da literatura? O quanto o seu filme nega ou sustenta essa imagem? E o quanto de Sartre e “Entre Quatro Paredes“, existe ali, conscientemente?

A imagem que tenho da Segunda Guerra não veio da literatura e nem do cinema. Veio do colégio alemão onde estudei por dezassete anos. O filme não leva nenhuma imagem desse momento. Transmite somente a atmosfera. Não existe um Sartre conscientemente. Existe a Rua do Triunfo, Boca do Lixo, em São Paulo onde os intelectuais de cinema sem dinheiro ficavam no Bar Soberano bebendo e discutindo sobre política e cinema.

Qual é a Europa a que os seus portugueses e a sua francesa pertence? E o quanto essa Europa se parece com o Velho Mundo de hoje? O quanto daquela Europa reside na Roterdão que te acolhe hoje, online?

A Europa que conheci é de imigrantes portugueses e espanhóis pobres, os meus avós, que eram pequenos comerciantes e camponeses. Não tenho nenhum contato com a Holanda, a não ser pelo meu querido amigo árabe e imigrante Ricardo Kanji, flautista do Musikantiga, que virou primeiro flautista da Orquestra Sinfónica de Amesterdão.

Lembro-me que em Gramado, em 2008, na sua passagem pelo júri, você comentou da sua experiência como jurada da Berlinale, ao lado de Theo Angelopoulos e Sergio Leone. Queria muito que você compartilhasse com o C7nema alguma lembrança daquele júri. O que ele te trouxe de mais revelador sobre o cinema?
Foram várias experiências marcantes. O mais revelador para mim foi descobrir que eu não passava de uma “cucaracha”! A Larisa Sheptko “apaixonou-se” por mim desde o primeiro minuto e me chamava de “mon bébé bolivien”. O outro choque foi quando o Theo Angelopoulos, furioso porque eu havia votado no filme do Ruy Guerra, perguntou aos gritos: “Você é júri de um festival para votar no filme que mais gosta?”. Vou parar por aqui. Esses são os choques mais evidentes. Existem muitos outros!

Últimas