Se o título do filme evoca os famosos jardins suspensos da Babilónia, cuja localização se estima próxima da cidade de Hila no Iraque, ele também serve de referência sarcástica à enorme lixeira que ocupa os arrabaldes de Bagdade, cidade onde o pequeno  As’ad (Wissam Diyaa) e o seu irmão Taha passam o dia à cata de lixo, vendendo depois os “tesouros” encontrados. 

Grande parte desse lixo que seletivamente recuperam é na forma de folhas de revistas com conteúdo erótico-pornográfico, provenientes das bases militares norte-americanas estacionadas no país após a sua invasão e deposição do regime de Saddam Hussein. Quando o rapaz de doze anos encontra uma boneca sexual nessa lixeira e decide ficar com ela, inicia uma jornada da qual o seu irmão não quer fazer parte. Colocado nas ruas, As’ad vai encontrar num tanque abandonado a sua casa e na boneca um objeto de “empreendedorismo” que o vai colocar em apuros juntamente com outra criança que faz das ruas a sua vida.

Estreia absoluta nas longas-metragens do iraquiano Ahmed Yassin Al-Daradji, que até agora trabalhou principalmente no som de diversos filmes e como assistente de realização de “Our River…Our Sky“, “Hanging Gardens” é de certa forma um filme que nos leva a um país destruído e fragmentado que normalizou o trauma e o sofrimento após uma transição de poder marcada a sangue.

Quem o comanda na praticidade não são as forças da lei, mas alguns elementos da comunidade que agem como uma máfia mais ou menos organizada onde o lucro comanda as decisões, mas o islamismo ainda corre nas veias. E estes miúdos, muitos deles órfãos do conflito, vagueiam a céu aberto, encontrando nestes homens verdadeiras figuras paternais, deambulando sem perfeita noção da separação entre o bem do mal. Por isso mesmo, e embora não exista um grito de “Dadinho é o caralho, o meu nome agora é Zé Piqueno, porra!”, a decisão de As’ad em se tornar um proxeneta da boneca, convidando todos a servirem-se dela a troco de dinheiro, é vista como uma forma de emancipação e sobrevivência, não apenas económica, mas social, num país à deriva e que poucas ou nenhumas hipóteses dá aos seus habitantes para viverem por entre as ruínas. 

E neste processo, entre a observação e um neorrealismo com um alto cuidado estético, Ahmed Yassin Al-Daradji cria uma história de amadurecimento que vai levar o pequeno a entender os mecanismos de exploração capitalista e as suas consequências na desumanização, um pouco como estranhamente o protagonista de “Os Deuses Devem estar Loucos” percebeu quando levou para junto do seu povo uma garrafa de coca-cola que caiu dos céus, e levou ao fim da harmonia na sua comunidade.

Um belo primeiro filme que certamente fará um circuito festivaleiro internacional nos próximos meses.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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