Interessa aqui pensar o corpo como campo de batalha, constituído por uma relação de forças. No corpo operam distintas potências maquínicas (positiva ou negativa, alegre ou triste) que extraem possibilidades de captura ou resistência, de opressão ou liberdade.
Corpos que buscam romper com a representação ou tendências homogeneizantes; corpos como potência afetiva e política, são questões abordadas no filme “Nuestros cuerpos son sus campos de batalla” (Nos corps sont leurs champs de bataille/Our bodies are your battlefields, 2021), da realizadora francesa Isabelle Solas. Esta sua primeira longa-metragem documenta e expõe a luta de ativistas transfeministas argentinas que travam batalhas diárias e incansáveis com os seus corpos, agindo com coragem e resistência. A realizadora filma o corpo como modo de intervenção política, potencializando a luta de mulheres trans.
Assim que assisti o filme, me perguntei porque uma mulher francesa, não trans, decide ir até a Argentina fazer um filme sobre esta temática. Em 2013 havia um debate em França sobre “Casamento para todos”, enquanto na Argentina acabava de ser aprovada a Lei da Identidade de Género; época em que Solas fazia uma pesquisa sócio-antropológica sobre questões de género. “Queria dissecar como o desejo pode ser político, esta fonte individual e coletiva que torna possível pensar o mundo de forma diferente. Estes corpos que se movem neste território conturbado e violento que é hoje a Argentina; e que são em si mesmos um ato de resistência”, declara a realizadora numa entrevista. Ela relata ter ido ao encontro de mulheres do Colectivo Otrans, coletivo argentino, num momento em que ela se questionava, se ser mulher era uma identidade e como poderia sentir-se livre dentro desta categoria. “Sempre me intrigaram as questões de identidade, uma vez que conduzem frequentemente a conflitos, violência”, afirma Solas. Para ela, a identidade trans confronta o capitalismo, o patriarcado e o binarismo. E questiona porque as pessoas que se autoidentificam trans são uma afronta para as outras pessoas; e porque são rejeitadas por algumas feministas.
O título do filme surge do cartaz Your Body is Battleground/O seu corpo é um campo de batalha (1989), da artista Bárbara Kruger, feito em apoio à luta pelo aborto.
O documentário de Isabelle Solas inicia com a sessão de julgamento de um homem hetero, que em 2018 foi condenado por esfaquear até à morte Diana Sacayán, uma mulher trans. Uma histórica condenação, pois foi a primeira a ocorrer na Argentina ao abrigo da lei contra crimes de ódio motivados por género, a Lei da Identidade de Género; Lei que é uma conquista das pessoas trans. Lei que declarou que sexo e género são duas coisas distintas e que as pessoas são livres de determinar a sua identidade de género, sem ter de se justificarem perante o Estado.
No filme, a realizadora concentra-se, principalmente, na vida diária, nas vozes e ativismo político de duas mulheres transexuais, que fazem parte do Coletivo Otrans e cujo lema é “seguir lutando, sem se calar, lutar contra a opressão do patriarcado e a hetero-normatividade, contra o machismo, a exploração capitalista e todas as formas que sufoquem as identidades”.
Uma das protagonistas é a veterana ativista Cláudia Vásquez Haro (que nasceu no Perú e é radicada na Argentina há muitos anos). A sua mãe é idosa e apoia a filha em seu ativismo. E a outra mulher é Violeta Alegre. Assim, como Cláudia, tem cerca de 50 anos. Ela é investigadora no campo da antropologia, e declara que ser trans é perigoso na Argentina, onde a expectativa de vida é de apenas 35 anos, também na América Latina. Dentro das suas causas, reivindicam aos movimentos feministas uma maior inclusão das mulheres transgénero.


Frames do filme, Cláudia à esquerda e Violeta à direita
Ao longo da narrativa ouvimos também as vozes de Lara, Marlene, Karola, Viky, Aradia e outras trans que lutam pelos direitos desta categoria social minoritária. Elas denunciam e lamentam a morte das trans argentinas:Lohana Berkins, Nadia Echazu, Cynthia Moreira, Pamela Cabares, Marcela Chocobar, da anteriormente citada Diana Sacayán, dentre outras.
As personagens relatam seus sofrimentos e sentimentos quotidianos e contam como é viver à margem da sociedade. Uma delas argumenta que ser feminista é respeitar a diversidade de mulheres que somos, e que todas as mulheres deviam dialogar e lutar juntas. A sexualidade também é algo político, completa ela. As trans abordadas no filme não se expressam com vitimização e põem em debate as questões que as afligem na vida arriscada que levam nas ruas, diante do desafio de colocarem seus corpos nos campos de batalhas a que são sujeitas. Muitas das trans são marginalizadas, abandonadas pela família, discriminadas pela sociedade e obrigadas a se prostituírem para sobreviver. Elas declaram que, na Argentina, 97% das mulheres que se prostituem o fazem por necessidade económica e não por livre escolha. Segundo Solas, os corpos de pessoas trans assassinadas são encontrados queimados, lacerados, mutilados como num campo de batalha, num campo de guerra. A violência contra elas, e também contra mulheres não trans, é incessante e está por toda parte, todavia não deve reduzir o significado de suas, de nossas lutas.
As personagens em suas falas destacam a diferença entre a orientação sexual e a identidade de género: “O corpo para nós, travestis e trans, é uma ferramenta de luta, e é impossível dissociar nossa identidade do nosso corpo, declara uma das mulheres”. Outra, diz que “ser não binário, mulher transsexual, travesti ou lésbica, e desejar outra mulher (ou um homem), não devia mudar o valor e o respeito à pessoa, ao ser humano; mas socialmente é isto que acontece”. Outra personagem, argumenta que o cristianismo cristão coloca a culpa numa pessoa que se sente diferente do sexo como nasceu, mas isto não determina sua identidade.
Elas afirmam que a falta de políticas públicas, a violência policial, o medo de serem presas, torturadas ou mortas, a precariedade nos relacionamentos afetivos, a manipulação dos homens hetero sobre seus sentimentos, a fragilidade e agressão que enfrentam dentro do próprio meio familiar por terem corporeidades diferentes do “normal”, são desafios que enfrentam. E lamentam, serem desprezadas por certas mulheres feministas, que expõem uma disputa de poder e não um alinhamento das lutas.
No filme, há um excerto em vídeo, do registo do Encontro Plurinacional – Encontro de Mulheres, em que a ativista Angela Davis participou na cidade de La Plata, em 2019, e no qual ela critica o feminismo branco afirmando que os “direitos e liberdade sempre foram restringidos por raça, classe e género”. E insiste que: a saída para as mulheres, brancas ou negras, de todas as classes sociais e género é se aliarem em suas diferenças e lutarem juntas.
Solas desconstrói as representações estereotipadas de pessoas trans no cinema, que em geral são retratadas como vitimizadas, frágeis e solitárias, ou glorificadas como estrelas. E por meio do ativismo de Cláudia e Violeta e da potência política do Coletivo Otrans, a realizadora coloca em relação a história e as lutas das mulheres trans. O filme é um brado de resistência contra as intolerâncias ligadas a identidade de género e as comunidades trans, e nos convida a atentar a este o universo por vezes invisível na nossa realidade.
Quase por findar este texto, saliento que a estética e linguagem do filme é calcada na tradição do cinema direto, a realizadora segue e documenta as mulheres trans em protestos públicos e as suas atuações no viver quotidiano. A montagem segue o ritmo da vida movente e ativa das duas personagens principais.
Finalmente, não custa lembrar que há outro documentário sobre identidade de género, “Disclosure: Trans Lives on Screen” (2020), do cineasta norte-americano Sam Feder, mas diferente da visão empoderada das mulheres trans do filme de Solas; o documentário de Feder traz representações negativas sobre pessoas transgénero, no cinema e na televisão, revelando como Hollywood fabrica visões estereotipadas sobre género. Obra disponível na Netflix.
Há também o livro Nos corps, leur champ de bataille – Ce que la guerre fait aux femmes, da jornalista inglesa Christina Lamb. Ela argumenta que os corpos das mulheres são, literalmente, um campo de batalha. A sua abordagem, distinta daquela de Solas, foca na violência sexual feminina em contextos de guerra. Lamb, como repórter há cerca de trinta anos, recolheu os testemunhos de mulheres sobreviventes, vítimas da guerra na Bósnia-Herzegovina, do genocídio ruandês, as “mulheres de conforto” japonesas, etc. Milhares de mulheres violentadas em todo o mundo. Mulheres que carregam traumas intensos e normalmente são silenciadas pela dor e o medo de serem mal vistas pela sociedade.
Solas em seu filme, não faz referência a estas duas obras.
Com duração 1h40, “Nuestros cuerpos son sus campos de batalla” (2021), está disponível na MUBI. O filme foi rodado na Argentina e demorou 7 anos para ser feito. Com roteiro, fotografia e realização de Isabelle Solas. A sua assistente de realização foi Anna Feillou, quem conhece bem a Argentina. Solas tem formação em Antropologia. Faz vídeo-dança, videoclipes e trabalha também com performance. A montagem do filme é de Anna Riche e o som de Victória Maréchal e Victória Franzan.




















