Se por momentos poderíamos achar que a representatividade no cinema e na televisão não tem qualquer tipo de influência, “Disclosure” prova-nos o contrário.
A televisão e o cinema têm influenciado não só a forma como a sociedade vê e aprende a reagir à transexualidade, como têm também motivado a forma como os próprios transexuais se vêm a si mesmos.
Num documentário que demonstra uma forte interseccionalidade, dando voz a diferentes membros da comunidade transexual, existe um sentimento comum: as imagens e representações com que contactaram ao longo do seu crescimento não coadunavam com a forma como se sentiam e viam como trans.
Numa representação carregada de estereótipos e discriminatória não só pelo género, como também pela classe ou pela cor da pele, a comunidade transexual ainda hoje assiste à emasculação do homem afrodescendente através do mero ato de colocar um vestido, ou à maior representatividade da mulher trans em relação ao homem transexuado pelo facto da mulher, em geral, ser um bem mais comercializável.
Se muito se propagou uma imagem errada e preconceituosa da figura do transexual como vítima, como profissional do sexo ou até como violenta e criminosa, também vemos em filmes como “Paris is Burning” (1990) e em séries como “Pose” (2018) um ultrapassar da mera representação da comunidade sob os prismas do mundo heteronormativo, branco e cisgénero.
Este documentário, produzido pela Netflix, conta-nos tudo isto e dá-nos esperança numa representatividade da transexualidade mais positiva, diversificada e real, nas produções cinematográficas e televisivas.
Mas, tal como a voz de Laverne Cox nos relata, “Ter representações positivas só contribuirá para mudar as condições de vida das pessoas trans se fizer parte de um movimento mais vasto de mudança social. Mudar a representatividade não é o objetivo. É apenas o meio para atingir um fim. Porque, até que isso aconteça, toda a energia do grande ecrã não bastará para melhorar a vida das pessoas trans fora do ecrã.”.


