Seja como uma mulher abandonada pelo amante que é forçada repensar toda a sua vida(“Antoinette dans les Cévennes“), ou como prostituta e mãe de um adolescente (“Une Femme du Monde“), ou ainda como mãe de dois filhos que se multiplica em trabalhos para sustentar a família (À plein temps), a atriz Laure Calamy tem sido um dos expoentes máximos da sua geração na arte do bem atuar, seguindo normalmente papéis que, quando descarnados, nos levam às invisibilidades, dificuldades e prazeres do ser mulher num mundo contemporâneo.

Agora, ainda que viajando até à década de 70, a atriz prossegue essa análise, levando-nos até ao período em que a luta pela legislação sobre o aborto, que chegaria com a chamada Lei (Simone Veil), ainda era intensa.

Quem já teve a oportunidade de ver “Call Jane”, estreado este ano em Sundance e exibido em Berlim, vai encontrar demasiadas semelhanças no enredo como o filme de Phyllis Nagy, até porque a luta pelo direito ao aborto foi universal, acompanhando o espectador nas duas obras os esforços de um grupo de mulheres ativistas para executar abortos na clandestinidade a várias mulheres que suplicam por eles.

E tal como “Call Jane”, a personagem de Calamy começa ela mesmo por pedir um aborto ao grupo, envolvendo-se posteriormente nas suas atividades, que passavam mesmo por procedimentos médicos. 

Assinado por Blandine Lenoir (Aurore), a inserção da personagem de Calamy no universo proletário, ao contrário da classe média da personagem de classe média/alta de Elizabeth Banks em “Call Jane”, traz especificidades muito próprias da luta de classes, conseguindo assim alguma unicidade, mas colocando lado a lado ambas as propostas, o espectador vai encontrar mais semelhanças que diferenças.

Esteticamente pálido, pelo menos até a Lei Veil ser aprovada, este filme de Blandine Lenoir chega assim num período em que o cinema francês volta a ter o tema do aborto na sua agenda, isto num momento em que se discute se deve ou não ser inscrito na constituição francesa como um direito das mulheres. Depois de “O Acontecimento”, que nos levou ao drama de Annie Ernaux nos anos 60,  e de “Petites”, que acompanha uma jovem que já não pode abortar por estar com quatro meses de gravidez, o cinema gaulês ainda espera o ansiado biopic em torno de Simone Veil. Juntando este “Annie Colère” a este trio, ficamos com um quarteto de obras representativas de uma situação ainda contemporânea, demonstrando a urgência de manter o tema sempre nas manchetes, até para evitar que aconteçam retrocessos como se viu nos EUA.

Uma nota final para a escolha da cineasta em colocar excertos reais de ativismo pela condição da mulher na década de 1970, sendo um deleite para o espectador ver e ouvir as palavras de Delphine Seyrig num debate televisivo que se tornou memorável para a causa.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
annie-colere-viagem-aos-anos-70-e-ao-ativismo-pelo-direito-ao-abortoA inserção da personagem de Calamy no universo proletário, ao contrário da classe média da personagem de classe média/alta de Elizabeth Banks em “Call Jane”, traz especificidades muito próprias da luta de classes, conseguindo assim "Annie Colère" alguma unicidade na sua proposta