Em 1959, Pier Paolo Pasolini e o fotógrafo Paolo di Paolo meteram-se num Fiat 1100 com uma missão: fazer uma viagem cobrindo todo o litoral italiano – ou, por outras palavras, até “onde a Itália termina”, como diz o título. Assim, arrancaram de Ventimiglia, na fronteira com a França, e terminou em Trieste – próxima à atual Eslovénia. Das suas impressões nasceram uma série de artigos publicados episodicamente na revista Sucesso. 50 anos depois, em 2009, o cineasta belga Gilles Coton propôs fazer o mesmo trajeto, registando imagens que, de alguma forma, se relacionam com os textos.
Pasolini intitulou a sua série de artigos sobre os mais de 4000 quilómetros que percorreu de “A Longa Estrada de Areia”. Estes textos, por sua vez, foram recuperados pela editora Mandadori em 1998 para a sua coleção de “obras completas” – dedicada às produções de artistas italianos e mundiais.
Coton também começa a sua viagem por Ventimiglia, embora os registos visuais que aqui faz antecipam o maior problema desta ideia: a fraca significação dos planos escolhidos em muitos casos, como que sacrificando a regra da relevância por uma escolha arbitrária um tanto autocomplacente.
Posto isso, as imagens são contrapostas com registos em “off” tirados dos apontamentos de Pasolini e algumas entrevistas – que envolvem pessoas “do povo” e algumas nomes sonantes, como os do cineasta Mario Monicelli, na última entrevista que concedeu antes de morrer, e do escritor Claudio Magris – o autor de “Danúbio”. Áudios de rádio e TV dão ajudam a formar o perfil pretendido por Coton em registar a Itália atual.
A escolha das citações do cineasta recaem sobre reflexões intimistas, numa linguagem poética que diz mais das sensações que ele ia experimentando enquanto viajava (em alguns casos refere à uma “alegria infantil” de esperar pelo dia de amanhã para continuar) do que de uma análise pragmática do que via. Há exceções, como a forma muito dura com a qual ele se expressa quanto atinge uma localidade próxima a Crotone, que parecia-lhe uma cidade “entregue aos bandidos”, como nos velhos faroestes. A citação, aliás, se revelaria mais um dos problemas que enfrentaria: antes de receber um prémio literário em Crotone, seria considerado “persona non grata”.
Quanto ao que Gilles Coton vai encontrando, percebe-se que o seu intuito de se concentrar nas periferias da Itália do século XXI vai plenamente de encontro a obra de Pasolini dos primeiros anos – desde o seu livro “Una Vita Violenta”, publicado também em 1959, até os seus primeiros filmes, como “Accattone” e “Mamma Roma”.
Assim, surge o desprezo dos italianos pelos ciganos “rom”, a xenofobia expressa na condenação pela sociedade de dois romanos antes do julgamento que os inocenta e a questão da imigração. Esta mostra um africano emigrado que ganha pouquíssimo dinheiro e vive separado da família ou uma bailarina romena que, na falta de melhor, foi parar a um clube de “strip”. Também há problemas para os italianos: a repressão política, que vitimou um jovem que protestava contra o G8 em Génova, em 2001, e a pobreza: nas montanhas da Calábria encontram-se pessoas à margem pelo isolamento espacial – vivendo de forma precária.
O registo visual é menos interessante e a opção de fazer uma leitura da Itália atual deixando ela vir ao de cima através do rádio e da TV, onde se discute as mil e uma confusões envolvendo Silvio Berlusconi e a transferência do jogador de futebol Kaká para o Real Madrid, as peripécias do Big Brother 9 e outras manifestações de um país fútil segundo a habitual sonolência promovida cientificamente pelos meios de comunicação, revela-se duvidosa.
O filme termina com uma bela reflexão de Magris a qual, de forma indireta, vai de encontro ao registo sensorial de Pasolini. O escritor reflete sobre essa era da ansiedade, onde as pessoas parecem ter perdido a capacidade de sentir e respirar apenas e tão somente o momento presente. “Já não somos como as crianças que correm sem querer chegar a algum lugar, que correm apenas pelo prazer de brincar”, diz.




















