Culpa é um substantivo que costuma figurar na obra literária e teatral do Prémio Nobel Luigi Pirandello (1867-1936) destituída de vetores morais, como se nota na visita do cineasta Paolo Taviani à prosa e ao palco desse agigantado autor no filme “Leonora Addio”, exibido pela 72ª Berlinale, em concurso ao Urso de Ouro. “A culpa é dos factos. Somos todos prisioneiros dos factos. Eu nasci, logo existo. Isso é um facto”, escrevia ele ao apontar, lá pelos idos anos 1910, antes de o existencialismo estar na moda, uma manifestação de incomunicabilidade inerentes às relações humanas que se expandiam a partir da relação com os media, com o progresso industrial. “É próprio da natureza humana, lamentavelmente, sentir necessidade de culpar o outro de nossos desastres e de nossas desventuras”. Uma vez que o tema é o impasse da comunicação o nome (e a obra) de Michelangelo Antonioni (1912–2007), realizador que mais se debruçou sobre o assunto não pode passar desapercebido. Não é à toa, portanto, que uma cena de “L’Avventura” (1960), seja incorporada por Taviani como um fragmento dessa espécie de filme-testamento que marca o seu regresso à capital alemã uma década depois da conquista do Urso de Ouro por “César Deve Morrer” (2012). Um filme que usa Pirandello e o seu senso alarmista acerca da factualidade que nos sufoca como sua base dramatúrgica, em dois eixos. Eixos que conversam, mas que não têm igual vigor.
Talvez o realizador não se importe com essa percepção, afinal ele aprendeu lendo Pirandello que “nada é mais complicado que a sinceridade”. Sendo sincero: “Leonora Addio” é imperfeito, mas imperdível. É um dos mais surpreendentes filmes da seleção de 2022 da Berlinale por um aspecto que o singulariza: a originalidade do seu enredo. Um enredo escrito por Paolo no meio ao processo de luto com a morte do seu irmão mais velho – e companheiro de 28 filmes – Vittorio Taviani (1929-2018). Os dois filmaram juntos de 1954 (após o lançamento do curta “San Miniato, luglio ’44”) a 2017 (data de estreia de “Una Questione Privata”). Fizeram em duo obras-primas como “Padre padrone” (Palma de Ouro em Cannes, em 1977) e “A Noite de São Lourenço” (Grande Prémio do Júri na Croisette, em 1982). Ao flanar pelo património literário pirandelliano, Paolo abre o filme com uma dedicatória a Vittorio.
Numa escrita requintada, o cineasta revisita ainda Antonioni, como supracitado, e “Paisà”, de Rossellini, mesclando cenas de ficções desses cineastas a imagens documentais de arquivo diversas. Isso se dá na primeira metade de “Leonora Addio“, quando a fotografia de Paolo Carnera e Simone Zampagni opta pelo preto e branco. Nessa primeira parte, temos uma premissa funérea: vemos um périplo estatal do governo italiano, no Pós-Guerra, para remover as cinzas de Pirandello de um cemitério fascista em Roma a fim de levá-las até um digno recanto na Sicília. O que se passa com a sua mortalha é digno das situações inusitadas da peça “Seis Personagens à Procura de um Autor” (1921), pérola da dramaturgia de Lugi. É o que se vê quando passageiros de um trem jogam cartas sobre a urna onde está o “morto”. Igualmente “pirandéllica” é a situação em um grupo de pessoas se recusam a viajar ao lado do defunto cremado… É uma confusão atrás da outra, tendo sempre o inspirado ator Fabrizio Ferracane no papel do Delegado Geral da Comuna Agrigento, a terra de Pirandello. É ele que precisa conduzir as cinzas de um lugar ao outro, com todo o seu cepticismo. Os arquivos e trechos de filmes ajudam – bastante – Paolo a contar o estado de coisas em que a Itália se encontrava naquele momento da História.
Mais convencional, o tomo dois nasce de uma fala repetida ao longo do primeiro hemisfério sobre o contraste entre velhice e juventude, que parte de uma máxima de Luigi em “I Vecchi e I Giovani” (“Os Velhos e Os Moços”, 1909) de que tudo passa. A partir dela, Paolo faz uma adaptação bastante dolorosa do conto “Leonora, Adeus!”, a retratar as consequências de um prego na mão de um imigrante que se solta a dançar, num palco, ao ritmo de uma música pop. Essa segunda porção da longa-metragem é mais académica, corriqueira, mas não lhe falta viço… nem dor.
O que a Berlinale viu não é simplesmente “mais um filme” de um cineasta de respeito. É uma espécie de corpo a corpo de um grande artista com a morte, medido (e motivado) pela perda de Vittorio, que gera uma espécie de inventário. Um inventário das cicatrizes da sua geração e do nosso tempo.




















