Vencedor do prémio Un Certain Regard na última edição do Festival de Cannes, “Descerrando os Punhos” bem que poderia fazer parte de uma double bill imaginária com “Fists In The Pocket“, esse primeiro filme de um dos grandes realizadores europeus, o italiano Marco Bellochio. De modo semelhante, o filme de Kira Kovalenco conta uma história da genealogia da violência familiar, centrando a narrativa numa família disfuncional onde o conflito e a codependência fazem da vida uma experiência de abuso sufocante.
Em entrevista ao C7nema aquando de uma muito aplaudida passagem na mais recente edição do Festival de San Sebastian, a realizadora comentava que o filme aborda de forma indireta a atmosfera trágica provocada pela sucessão de conflitos na região do Cáucaso, sem nunca apontar o dedo a um evento em particular. Numa história com alguns traços de carácter autobiográfico, é como se a recusa em dar nome à tragédia da História fosse um gesto com o poder de mostrar aquilo que acontece quando a realidade do trauma se substitui à banalidade da normalidade.
Com a presença de atores não profissionais a contribuir para a textura impressionista de “Descerrando os Punhos“, determinante para esta segunda obra da realizadora é o modo como uma sociedade degradada e atordoada pela guerra aqui aparece como um reflexo cicatrizante na dinâmica familiar, sem que isso se possa reduzir a um registo metafórico que coloque em causa a densidade das personagens, fazendo delas pequenos bonecos sem outra razão de ser senão o de ilustrar uma ideia.
A ação decorre numa cidade industrial da Ossétia do Norte, uma região semiautónoma na fronteira russa com a Geórgia, e é aí que encontramos Ada (Milana Aguzarova) e os seus dois irmãos, Dakko (Khetag Bibilov) e Akim (Soslan Khugaev). É sobre eles que pesa a influência do pai, uma figura controladora e autoritária que se impõe nos destinos dos seus filhos na mesma medida em que deles depende. É o sonho de Ada viver a sua própria vida que move a narrativa do filme, um desejo que vai sendo atropelado pelas circunstâncias familiares, um ambiente tóxico e degradante que confunde afeto com dependência – veja-se por exemplo a relação que tem com Dakko, o irmão mais novo que pede para dormir consigo na mesma cama e que a trata por “mãe”.
‘Herdeira’ de Aleksandr Sokurov, cineasta de quem foi justamente pupila, o cinema de Kira Kovalenco surge na esteira do realismo austero de realizadores como Kantemir Balagov (que a título de curiosidade também triunfou na mostra Un Certain Regard, vencendo o prémio de melhor realizador em 2019 com “Beanpole“), e “Descerrando Os Punhos” é um passo que poderá ser decisivo para a consagração internacional da realizadora – é precisamente a aposta russa para a categoria de Melhor Filme Internacional nos próximos Óscares.




















