Descerrando os punhos com Kira Kovalenko: “Não tenho o dom para criar algo comercial.”

"Descerrando os punhos" estreou nos cinemas a 3 de fevereiro

(Fotos: Divulgação)

Drama de emancipação com um trauma do passado no centro das ações do presente, “Descerrando os punhos” foi uma das grandes surpresas do último Festival de Cannes, arrecadando o Prémio Un Certain Regard em Cannes.

Depois disso, o filme passou com estrondo em San Sebastián, local onde nos sentámos à conversa com a jovem cineasta que trata Alexander Sukorov como mestre. 

E embora Kira Kovalenko tenha o medo de usar a palavra de “autor” para a sua arrancada na 7ª arte, ela só se vê nessa direção, agora com maior pressão após a conquista em Cannes. E embora tenha dúvidas quanto ao seu futuro, uma coisa parece ser certa: o cinema comercial não é para ela, pois a jovem russa acredita que não tem o “dom” para triunfar nele.

O “Descerrando os punhos” foi certamente inspirado e influenciado pela história do Massacre de Beslan, em 2004, onde 1200 pessoas ficaram reféns e 334 pessoas morreram. Porém, esse evento nunca é mencionado concretamente. Qual a razão?

O que assistimos no Descerrando os punhosé a uma família marcada pela sobrevivência a um evento trágico. E que os traumatizou, marcou para sempre. No Cáucaso, existiram vários eventos trágicos dessa natureza, não apenas um, como esse que mencionou.

Então não é diretamente inspirado nele?

Para ser realizadora, a minha intuição é ser muito precisa nas coisas, mas quando escrevo um guião, levo em consideração eventos reais, mas simultaneamente penso em todos aquelas situações que marcaram e influenciaram a minha juventude, a minha memória, tudo em mim. No Cáucaso, infelizmente, houve vários eventos dramáticos. Não apenas um. E esses outros  eventos não são, definitivamente, menos importantes que esse do Beslan.

Quando evocou essas memórias de juventude, significa que estamos perante um filme com elementos autobiográficos?

Sim, existe algo biográfico neste filme. Alguns pontos nas relações com os pais e outros pequenos detalhes, até atmosféricos, que prefiro não apontar onde estão…

E como criou a interação e o relacionamento entre as personagens que vemos em cena, e como interagiu com os atores para que eles entrassem nesses papéis?

Como  sabia que o meu elenco era composto por muitos não-atores, ensaiamos muito, meses antes das filmagens. Depois, filmamos tudo cronologicamente. Tentei que eles sentissem as personagens, as interiorizassem. Trabalho com eles da forma mais cuidadosa que posso, procurando que atuem o mais próximo possível ao que está escrito no guião  

E a opção de filmar num dialeto do osseto? Muitos cineastas, até por questões de mercado, optariam por filmar o filme noutra língua, neste caso o russo. Porquê essa escolha?

Todo o guião, como é natural, estava escrito em russo. Não falo osseto. Quando falei com os atores perguntei que língua falavam no quotidiano, em casa, com os amigos, familiares. Todos eles mencionaram o osseto. Para mim só seria natural seguir com a escolha dessa língua. Além disso, nunca pensei nesse projeto em termos comerciais, ou como o público ia reagir. O mais importante para mim era a naturalidade.

Falando um pouco nas suas influências, não apenas no filme, mas na sua forma de ser como realizadora, qual a influência de Aleksandr Sokurov, de quem foi pupila, no seu cinema?


No que diz respeito ao meu mentor, o Sokurov, ele dá muita importância aos detalhes e eu preocupo-me muito com eles também. Além disso, ensinou-nos a procurar inspiração na literatura. Sim, a literatura é a minha maior inspiração.

Se a literatura é a sua principal inspiração, como criou uma identidade visual? Como se processam as suas escolhas estéticas, ou seja, as marcas cinematográficas?

Tiro muitas fotografias e vejo também imensas. Tentei transformar os espaços que vemos no meu filme em atraentes do ponto de vista cinematográfico. Fiz isso enfatizando alguns elementos que existem, destacando por exemplo as cores que já lá estão nos espaços. Tento acima de tudo carregar e destacar os elementos que já ali estão, não trago novos.

Kira Kovalenko

Ser distinguida em Cannes, na secção Un Certain Regard, trouxe-lhe uma pressão extra para o seu próximo filme?

Sim, trouxe essa pressão e também responsabilidade. Agora existem sobre mim um grande número de novas expetativas. Quanto ao prémio em si, vejo isso como uma proteção ao meu filme. Mas quero esquecer isso tudo quando começar a trabalhar no meu novo filme, no primeiro dia.

E tem já um novo projeto?

Tenho uma ideia pequenina (risos)…

O Sokurov é conhecido também por trilogias e quadrilogias. Vai seguir nessa direção também (risos)? 

A minha próxima ideia é um documentário sobre jovens do Cáucaso, uma forma de tentar entendê-los. Talvez os meus filmes venham a formar uma trilogia no futuro, mas teremos de esperar (risos). 

Onde se vê dentro de dez anos? Tem planos a longo prazo ou vai passo a passo?

Não tenho planos a longo prazo, nem uma lista de coisas que quero fazer. Contudo, tenho reunidas algumas histórias que estão a crescer em mim todos dias.

Voltando ao Sokurov, no ano passado falei com ele. Nessa conversa, ele enfatizou o conceito de Cinema e Grande Arte. Também olha para o cinema como ele, com essa ideia de Grande Arte?

Não tenho o dom para criar algo comercial. Algo que seja fácil de interpretar, de perceber. Algo que se possa dizer que é para todos. Acho muito importante ser seletiva no que faço. E não devo ser amada por todos, nem os meus filmes devem ser adorados ou percebidos por todos.

É curiosa essa abordagem do filmar algo comercial. Algo que seja para todos, como um dom…

(risos) Essa capacidade de fazer algo comercial é uma qualidade profissional, um verdadeiro estudo de como chegar a todos…

Isso quer dizer que vai definitivamente seguir o chamado cinema de autor?

Tenho medo de usar essa grande e bela palavra “autor”. O que pretendo é  fazer algo que me faça crescer, que me ajude a superar-me a mim mesma. 

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