Quando Matrix surgiu em 1999, rapidamente tornou-se num marco de uma época e de uma geração, não apenas porque mostrava uma objetiva evolução em espetacularidade da exposição da cultura cyberpunk no grande ecrã, anunciando o século XXI e a dependência informática do homem, mas também porque transformou por completo a forma de se fazer cinema de ação no ocidente, motivando cópias e repetições exaustivas da estética (um filme à Matrix), que ia bem além do famoso “bullet time” que se tornou um fetiche. 

E esse filme dos Wachowski, que mesclava ideias já concebidas em várias outras obras (Neuromancer; Dark City, 13th Floor; Ghost in a Shell; Akira etc), carregando uma energia e uma força plástica que se via no cinema oriental, era apresentado perante os nossos olhos através de uma história de um amor (Neo e Trinity) e de sobrevivência, entre o real e o virtual, onde os humanos serviam de bateria para as máquinas, dando estas de volta a eles a ilusão de realidade.

Esse fulgor e sucesso comercial, muito movido também pela questão do livre-arbítrio, não produziu apenas a explosão criativa do conceito dentro do seu próprio universo, com mais filmes (em imagem real e animações), BDs e videojogos a juntarem-se ao original, numa profunda explosão cibernética pop, mas tornou-se um modelo a seguir para uma indústria multi-plataforma, e um objeto de análise ao milímetro, ao qual não escapou a crítica cinematográfica. 

Tudo isto é importante mencionar a abrir este texto, porque o primeiro terço deste novíssimo “Matrix Resurrections” é todo ele um ensaio meta carregado de auto-ironia aos filmes anteriores da saga (cujas imagens aparecem em cena), com Thomas Anderson (Keanu Reeves) e Tiffany* (Carrie Anne-Moss) a serem chamados novamente à equação Neo + Trinity por novas figuras fora da Matrix. E essa auto-consciência, de que na verdade todo este quarto capítulo é de certa maneira escusado e uma reciclagem conceptual, está explícita logo no início, quando se lê “porquê usar código velho para fazer algo de novo?

Agora assinado por apenas uma das Wachowski, Lana, “Matrix Resurrections” tem como problema imediato o facto de se sentir apenas e só mais um filme dos tempos atuais – atafulhado de explicações e sequências de ação competentes, mas em modo ‘dèjá vu’ -, ao contrário do primeiro filme, “muito à frente” da sua época, mesmo abordando temas que não eram de todo virgens. 

Esse fim do deslumbramento, especialmente a nível sensorial, já se sentiu em “Matrix Reloaded” e “Matrix Revolutions”, mas a expansão narrativa e o reforço estético desse mesmo universo, com a introdução de novas histórias, personagens, e geografias (reais e virtuais), embrulhadas num objeto de leitura multidimensional (alegoria religiosa, filosófica, política, informática), davam à agora franquia um charme intelectual.

Bugs (Jessica Henwick)

Se tecnicamente seria de esperar não haver esse novo esplendor, nem se ensejavam novas camadas de interpretação do conteúdo, certamente ansiava-se por um objeto consistente que não dependesse apenas da nostalgia na fusão do novo e do antigo, particularmente no que diz respeito às personagens. O problema aqui é que além de Neo, Trinity e de uma nova personagem chamada Bugs (Jessica Henwick), nenhuma outra figura é apresentada com a mínima profundidade, entusiasmo ou até paixão, nem consegue criar uma verdadeira ligação emocional com o espectador. A começar com o novo Morpheus (Yahya Abdul-Mateen I), que parece olhar para o antigo (Laurence Fishburne) e dizer “Why so serious?”; ou o eterno agente Smith, cuja expressividade do seu ator  (Jonathan Groff), que até cumpre a tarefa árdua, nunca apaga da nossa mente a força e pavor que Hugo Weaving transmitia cada vez que aparecia em cena perante Neo; ou ainda Niobe (Jada Pinkett Smith), que entra em cena com tanta irrelevância e desprimor como a que sai.

Além destas figuras, onde encontramos também um analista da Matrix e várias outras personagens (com pouco ou nada para acrescentar) interpretadas por atores que colaboraram com a realizadora na série “Sense8”, existem alguns apontamentos interessantes que mereciam maior exploração (talvez o sejam em spinoffs), como um conflito humano após a “libertação”, e uma área cinzenta alargada na relação entre máquinas e homens. Porém, subaproveitados, remetidos a meras menções, estes tópicos mais parecem adornos para encher o olho e dar uma falsa noção (inconsequente) de novidade.

No final, espremidas as coisas, temos Neo e Trinity. Nostalgia e renovação dos votos. Entre eles e de nós com eles. Mas isso é suficiente?

*não é gralha

Ps: existe uma cena pós-créditos, por isso esperem mesmo até ao final da projeção

Pontuação Geral
Jorge Pereira
matrix-resurrections-neo-e-trinity-renovacao-dos-votosEspremidas as coisas, temos Neo e Trinity. Nostalgia e renovação dos votos. Entre eles e de nós com eles. Mas isso é sufi