Servindo de continuação imediata de “Spider-Man: Far From Home”, esta nova aventura do Homem-Aranha, que chega aos cinemas esta semana, é, de longe, a melhor dos três filmes da mais recente franquia (2017,2019 e 2021). E é-o não apenas porque vem carregada de nostalgia, mas fundamentalmente porque a personagem de Peter Parker é melhor explorada e resolvida entre o tradicional coming-of-age adolescente e os desígnios maiores dos super-heróis, e também porque as exigências dramáticas requeridas são acompanhadas por uma boa prestação de alguém (Tom Holland) que sempre mostrou nos filmes anteriores as ansiedades de um miúdo a ter de lidar com o fardo (mais que dom) dos poderes e a responsabilidade a eles adjacente.
O final de “Spider-Man: Far From Home” ficou marcado pela revelação global da sua identidade como o Homem-Aranha, sofrendo agora Peter, os familiares e amigos, as consequências dessa descoberta, com muitos a considerarem-no um criminoso e outros um herói. É nessa nova realidade – entre a “fama” e o “cancelamento” – que Parker pede a Doutor Estranho (o sempre eficaz e carismático Benedict Cumberbatch) para que este use os poderes e faça com que todos esqueçam que ele é o Homem-Aranha. Porém, algumas indecisões de última hora levam a um erro e figuras de outros multiversos vêm parar ao nosso, lançando o caos.
Tudo isto já sabíamos pelo último trailer lançado, e calculávamos que todos os vilões que apareciam nesse pequeno vídeo iriam fazer (mais uma vez) a cabeça em água a Peter Parker. Porém, bem além da ação espampanante habitual que este tipo de filmes nos entrega, do humor (au point) e do esperado avanço no romance entre MJ e Peter, existe também um multiverso dramático cuidadoso que vai um pouco além do fan-service habitual – o qual existe e não se cansa em fazer pontes e abrir portas e portais para mais e mais personagens do Marvel Cinematic Universe (MCU).
Assim, do remorso à redenção, passando pela ganância, ego e vaidade, não esquecendo as segundas oportunidades e a tradicional decência moral vinda de dentro da família de Peter, tudo é abordado neste ‘Spider-Man: No Way Home’ (Homem-Aranha: Sem Volta a Casa), sendo, contudo, impossível detalhar como se movimentam tópicos e personagens sem revelar alguns spoilers cruciais que estragariam a experiência do espectador. A verdade é que este elemento surpresa, que é apenas um truque narrativo e de marketing, tornou-se uma espécie de droga dura para este género de filmes, tornando-os muito mais dependentes disso que do próprio cinema (linguagem) que existe (ou não) neles.
Mas pondo de lado estas equações sobre dependências exageradas de isto ou daquilo nos filmes de super-heróis, e seguindo noutra direção, prossigamos pelos meandros da realização, especialmente para aqueles segmentos fora das sequências de ação mirabolantes, as quais são todas elas desprovidas de uma verdadeira autoralidade e toque dos cineastas envolvidos, completamente sugados por uma besta maior (o tal MCU) que tem de apresentar artifícios de feira. Fora dessas sequências e na sua maioria, há momentos de puro prazer cinéfilo bem ao estilo do melhor material que o indie norte-americano costuma oferecer, como a sequência inicial em que a casa de Peter é cercada por tudo e todos (um belo plano sequência e uma câmara nervosa que captura as neuroses tão típicas nos filmes made in Nova Iorque); ou quando o Homem-Aranha mostra algumas mazelas e o peso da idade através de dores lombares, um dos momentos mais “wtf” de todo o filme e que serve como um showreel para vários tipos de humor (da comédia de situação ao deadpan, passando pela paródia).
A verdade é que pepita aqui, pechisbeque ali, mesmo nunca se livrando das amarras e lugares comuns do tipo de filme que é, ‘Spider-Man: No Way Home’ consegue ser mais ambicioso que os anteriores nas suas diversas dimensões (ação, drama coming-of-age e comédia); e nas ligações que executa entre diferentes mundos. E nunca como antes nesta franquia da era MCU todos estes elementos convergiram tão bem e se fizeram sentir tão pouco, mesmo passando quase 2h30 do nosso tempo, com uma cena e um trailer pós-créditos enfiados no embrulho.




















