Como “System Crasher” comprovou, a realizadora alemã Nora Fingscheidt tem em si um gene cinematográfico que a leva a abordar figuras pouco empáticas que a sociedade rejeita por uma ou outra razão. Mas se no filme que lhe valeu prémios em Berlim e em Portugal (no Fest) o alvo de estudo era a turbulenta Benni, uma rapariga de 9 anos que, tendo sido retirada à mãe pelo Estado, sofre de incontroláveis ataques de raiva derivados de traumas de infância, a sua tarefa neste “The Unforgivable” (Indesculpável) é mais complexa já que o foco da sua lente é Ruth Slater, uma ex-presidiária que em adolescente assassinou um xerife numa confrontação que, descobriremos mais tarde, estava relacionado com a guarda de Katie (Aisling Franciosi), a sua irmã mais nova.

É vinte anos depois dessa tragédia que começa a nossa história, uma adaptação da minissérie britânica homónima de 2009, visitando-se frequentemente o passado através das memórias de Ruth e da irmã, agora separadas e sem qualquer contacto, já que a mais nova foi entregue a uma nova família de adoção.

Cabe a Sandra Bullock a árdua tarefa de preencher Ruth com toda a força do trauma e poder da rejeição da sociedade perante si. Eis então um verdadeiro filme sobre “cancelamento” e se este poderá ser solucionado de alguma forma, não através do remorso (que ela nunca mostra), nem tão pouco pela benevolência ou redenção (perante a qual mostra sempre reservas que mais tarde entendemos), mas pela reaproximação à irmã como um ato que carimba a sua própria existência, a qual agora está entregue à solidão e à denegação social.

Talvez preocupado com os prémios da temporada, ou então preso às amarras comerciais de produto para massas (filme feito para a Netflix, produzido pela própria Bullock), “ The Unforgivable” nunca sai do seu lado esquemático no vai e vem entre passado e presente com recurso às artimanhas mais banais dos flashbacks, atolando-se igualmente de obstáculos nas “novas vidas” inerentes aos ex-condenados, aqui acentuados pelo alvo do crime ter sido um polícia.

Assim, e comprimidos em 114 minutos, temos uma história a dois tempos que se sentia mais orgânica no produto original, existindo mesmo algumas transições e mudança de posições nas personagens – com dos filhos do polícia assassinado – que se sentem profundamente artificiais no decorrer da ação. Também é mal resolvida a intromissão da personagem interpretada por Jon Bernthal, como um potencial elemento de romance e especialmente de compreensão ao crime de Ruth, bem como a presença de Vincent D’Onofrio e Viola Davis, que se manifesta apenas como um dispositivo do guião ao serviço de Bullock sem verdadeiramente nada a acrescentar além dos seus nomes para o cartaz.

Na verdade, à exceção da meia-irmã de Katie, Emily (Emma Nelson), tudo à volta de Ruth e da sua irmã parece seco e presente apenas para galvanizar a interpretação de Bullock, a qual, apesar de mostrar qualidade, não consegue elevar um filme para além de um produto sazonal destinado à época de prémios, e que ficou muito melhor entregue na minissérie original.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
indesculpavel-sandra-bullock-canceladaBullock mostra qualidade mas não consegue elevar um filme para além de um produto sazonal destinado à época de prémios