Premiado no Festival de Berlim, com atuações centrais espantosas e uma montagem magistral, Systemsprenger promete ser uma das grandes surpresas de 2019.

O fluxo de influências cinematográficas que alimenta Systemsprenger é vasto e remonta pelo menos ao cinema europeu dos anos 30. Já desde essa época que grandes realizadores – Jean Vigo, François Truffaut, Andrei Tarkovsky, Satyajit Ray, Roberto Rossellini ou Yasujirô Ozu, para nomear alguns – contam fortíssimas histórias sobre crianças que, lançadas na realidade crua, devem adaptar-se a circunstâncias impiedosas para sobreviver. O cinema moderno também tem visto a sua dose de narrativas deste género; basta determo-nos sobre a obra dos irmãos Dardenne, de Abbas Kiarostami ou de Lynne Ramsay para encontrarmos notáveis filmes desta linha que palpavelmente inspiram o formato realista e deambulante desta produção alemã.
A realizadora Nora Fingscheidt entra assim de rompante neste nicho cinematográfico, com uma impressionante crónica da turbulenta Benni, uma rapariga de 9 anos que, tendo sido retirada à mãe pelo Estado, sofre de incontroláveis ataques de raiva derivados de traumas de infância, que tornam o seu acolhimento em instituições sociais uma missão impossível. O batimento cardíaco do filme acompanha os períodos de euforia e de sossego de Benni, cujo comportamento errático a leva constantemente ora a ser internada, ora a ser levada para um novo estabelecimento. Desta arritmia gera-se uma espécie de rotina, na medida em que se tornam latentes e antecipáveis todos os prenúncios da crise desta pequena insurgente, impecavelmente interpretada por Helena Zengel.
A chegada de um novo funcionário que a deve acompanhar nas idas à escola – igualmente tempestuosas – impulsiona então um novo período na educação de Benni. Micha é um homem novo, com experiência na área, o que lhe permite lidar com ela de forma mais eficaz. Mas nada é simples nesta dinâmica de afetos e desafetos, e depressa outros desenvolvimentos na situação familiar de ambos provocam situações com riscos extremos.
A complexidade do contexto em que se encontram Benni e os educadores por ela responsáveis é honrada no guião de Fingscheidt, que elabora com excecional desenvolvimento psicológico não só a protagonista como todas as personagens que com ela entram em contacto. Num filme sobre uma criança esta característica torna-se essencial, visto que Benni está quase sempre acompanhada ou a ser vigiada por um adulto – o que a realizadora reconhece e, por esse motivo, concebe as personagens adultas com vidas internas construtivas. O elenco, por sua vez, aproveita infalivelmente essa oportunidade, resultando num conjunto de personagens cativantes, complicadas, realistas.

Desta forma, Systemsprenger funciona, por um lado, como a narrativa da frenética infância de Benni e, por outro, como um testemunho da realidade do sistema de proteção infantojuvenil e daqueles que nele trabalham. O título do filme reporta-se precisamente à incapacidade desse sistema para lidar e ajudar eficientemente Benni e crianças como ela. Esta conjugação de um caso íntimo e trágico com uma perspetiva alargada sobre a própria estrutura social em que ele ocorre fortifica a obra e destaca-a de outras perspetivas mais poéticas ou romanescas sobre infâncias precárias (veja-se o exemplo recente de The Florida Project).
Este é, assim, um filme de potência extraordinária que faz sobressair o potencial desta realizadora, cuja carreira conta ainda apenas com algumas curtas-metragens e um documentário. O seu olhar perscrutador, o modo como aproveita o espaço e os adereços, e, acima de tudo, a montagem provocadora e inovadora com que estrutura a narrativa apontam na direção de um futuro auspicioso para Fingscheidt. Mas independentemente de qualquer previsão, esta é já uma grande obra.

Guilherme F. Alcobia

