Os dramas sobre os migrantes têm percorrido os festivais de cinema, especialmente nos últimos dois anos, com bastante vigor, recorrência e sabor a vitória. Se este “As Far as I Can Walk” conquistou Karlovy Vary este ano, no passado recente, filmes como “Fear” e “Limbo” deliciaram o júri de múltiplos certames, como o do Tallinn Black Nights em 2020 no caso do filme búlgaro, ou o Festival do Cairo e Bruxelas no caso da obra de Ben Sharrock. Outros projetos como “Mediterraneo” e “Europa” também trafegaram com vigor pelos certames internacionais, e estes registos já não se limitam ao mero drama de consciência política e social, muitos deles fazendo inflexões no género, como o thriller no caso do filme iraquiano de 2021 dirigido por Haider Rashid.
Porém, em “As Far as I Can Walk”, o registo é mais clássico e fabular inserido numa narrativa contemporânea, um pouco mais na linha de “Berlin Alexanderplatz” ou “The Invasor”, ainda que longe dos meandros dos negócios ilegais e corrupção moral como arma de sobrevivência para os migrantes. Na verdade, o filme circula no sentido inverso e, baseado num poema sérvio medieval, foca-se em Samita (Ibrahim Koma), um refugiado ganense de 22 anos que faz tudo para se integrar na Sérvia, mas encontra a sua maior dificuldade na reconquista da mulher que ama, Ababuo (Nancy Mensah-Offei).
A certa altura desta obra, Ababuo pede a todos, através da imprensa, para deixar de lado a catalogação de migrante a que está confinada, exigindo que fosse vista como um ser humano e não um rótulo. Isso mesmo também transpira na narrativa e no arranjo que o realizador Stefan Arsenijević dá ao seu filme, que mais que querer o selo de filme sobre migração, revela ser um objeto sobre dois indivíduos, os seus desejos e ambições, e o choque entre realidade e os sonhos. E essencialmente é isso que acontece – sempre com o conto medieval em pano de fundo a ser narrado por uma voz off – em “As Far as I Can Walk”, com Samina a conseguir um emprego como futebolista e a a ver a sua situação no país de acolhimento ser regularizada, enquanto a esposa, uma atriz transformada pelas circunstâncias em animadora cultural de crianças, a recusar reprimir as suas ambições, que vão além do ter os papéis regularizados e poder viver num país.
E o gatilho é despoletado com a chegada de dois sírios ao grupo de refugiados, e a consequente decisão de Ababuo em não permanecer na Sérvia, junto do marido, e a contentar-se com o que lhe oferecem, partindo assim com a dupla numa rota que tem como destino final Inglaterra. É então que o desesperado Samita coloca tudo a perder e parte no encalço da esposa, numa jornada onde amor e frustração, mas igualmente construção de uma nova maturidade, ganha uma forte reflexão além da sócio-política.
Uma nota para a forma poética como texto e imagem (fotografia “lírica” de Jelena Stankovic) se casam neste filme ambicioso, e que vai além do chavão de obra para ganhar todos os prémios ecuménicos do planeta.




















