É sob as marcas do realismo que Ivan Herrera desenha o seu “Bantu Mama”, uma fábula que se afasta do terreno pantanoso dos estereótipos do narcotráfico, fazendo um par interessante com o filme colombiano de 2004, “Maria Cheia de Graça”.
Estamos na República Dominicana e seguimos a chegada de Emma, uma franco-camaronesa aparentemente presente num hotel para aproveitar um merecido descanso. É na partida do local, no aeroporto, que percebemos que ela não é mais que uma “mula” ao serviço do tráfico de drogas, sendo detida e encaminhada para a prisão. É nesse trajeto que um acidente a faz ficar livre, sendo salva por um duo de irmãos que vai ver nela, a partir desse momento, uma figura materna.
Coescrito, produzido e protagonizado por Clarisse Albrecht, “Bantu Mama” (referência aos bantus ou bantos, que constituem um grupo etnolinguístico localizado principalmente na África subsariana) traça um retrato curioso de um microcosmos familiar inserido noutro, um bairro ultra-problemático do país onde o crime e a falta de perspetivas para o futuro condena várias gerações à marginalidade. Quando o realizador nos apresenta o local, entre ruelas, becos, portões fechados e câmaras de vigilância, entendemos que – tal como o espaço urbano- a vida de todos os protagonistas em cena é um emaranhado de rotas difíceis de ultrapassar, sendo mais acessível, nesse caminho para a sobrevivência, o crime.
Nesse aspeto, o próprio bairro atua como uma personagem, quase tão importante como todas as outras que se atravessam no nosso caminho, com destaque para o tridente Euris Javiel, Arturo Perez e Scarlett Reyes, que com a sua nítida inexperiência contribuem para um maior naturalismo de todo o ambiente e, muitas vezes, um olhar de documentário ensaiado pelos mecanismos da ficção.
No final temos assim um objeto curioso e que mostra o dinamismo da produção local, normalmente ligada ao “cinema do real”, onde preocupações sociais e desintegrações familiares cruzam-se para produzir uma história simples, mas eficaz.




















