Depois de nos levar numa viagem curiosa, mas pouco aprofundada ou incisiva, ao submundo das claques de futebol e do hooliganismo na cena napolitana em “Ultras”, Francesco Lettieri viaja agora até ao submundo romano da música Trap, subgénero do Rap, acompanhando mais incisivamente Nic – apelidado de Lovely Boy (Andrea Carpenzano), uma estrela musical que canta sobre drogas, dinheiro e mulheres e que vagueia constantemente por registos de autodestruição regadas a substâncias ilícitas – isto pelo menos antes de sair cena e enfiar-se num centro de reabilitação.

Usando uma estrutura narrativa que leva o espectador entre passado e presente, da autodestruição à redenção, das salas de concertos e bastidores romanos a um espaço nas montanhas do Tirol do Sul de combate a dependências, Lettieri faz um retrato que frequentemente visita os lugares comuns do cinema e televisão sobre o consumo de estupefacientes e dos demónios internos de uma personagens encriptada nas suas emoções.

Na verdade, o realizador – um pouco como em “Ultras” – deixa apenas à flor da pele tudo o que acompanha, parecendo preferir permanecer num registo de captação de capas e círculos de aparência que escavar verdadeiramente sobre a psique do seu protagonista. E claro está que ao lermos “Lovely Boy” num filme onde as drogas têm tanta importância, vem-nos à cabeça outro “boy”, o “Beautiful Boy” de Felix Van Groeningen, que também entrava por terrenos semelhantes, mas com uma maior análise psicológica a um toxicómano e principalmente aqueles que o acompanham no drama (a família).

No mais, convém destacar neste “Lovely Boy” o trabalho de construção estética, com a direcção de fotografia, a banda-sonora e todo o design (interiores, guarda-roupa) a mostrarem brilho, saturação e cores espampanantes (rosas, azuis) que povoam a cena do Trap, em oposição a um realismo dessaturado quando viajamos para os tempos e espaços de reabilitação, como que num regresso ao “normal”.

No final, Francesco Lettieri notoriamente evoluiu no seu trabalho como realizador desde “Ultras”, mas ainda não foi desta que conseguiu brilhar na sua viagem à juventude e às subculturas urbanas que marcam tanto os seus corpos como mentes.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
lovely-boy-viagem-ao-mundo-da-droga-e-do-trapFrancesco Lettieri notoriamente evoluiu no seu trabalho como realizador desde “Ultras”, mas ainda não foi desta que conseguiu brilhar na sua viagem à juventude e às subculturas urbanas que marcam tanto os seus corpos como mentes.