Existe uma linhagem de cineastas ligadas a França e comprometidas com narrativas do real em diferentes níveis — Claire Denis, Catherine Corsini, Nicole Garcia —, habituadas a transformar o que poderia ser (auto)biográfico em autogeográfico. O conceito vem das ciências literárias, associado à poesia, e descreve experiências em que o meio se sobrepõe aos dramas confessionais que o alimentam. As Áfricas e as múltiplas Franças sobre as quais Denis fala nas suas longas, de Chocolat (1988) a Avec Amour et Acharnement (2022), constituem o eixo de filmes apresentados como retratos ou relatos afectivos. A arena é maior do que os seus frequentadores — e dita-lhes o destino.
A realizadora brasileira Flavia Castro, que passou parte importante da sua vida, da juventude à idade adulta, ligada a terras francesas, segue um procedimento semelhante. Diário de uma Busca (2010), que a catapultou para o reconhecimento e se tornou o seu marco autoral, alinhava-se à linhagem do documentário “álbum de família” (como Elena ou Person, nos quais as realizadoras falam de parentes), com o propósito de falar do pai — mas cartografava, sobretudo, o Brasil que o isolou sob o garrote da ditadura e o Brasil com que essa figura paterna sonhou. Havia ali mais geografia — uma triagem do espaço — do que retrato de personagem larger than life.
O seu novo trabalho de ficção, Cyclone, visualmente deslumbrante, mantém esse gesto autoral, agora fortalecido pela troca com uma protagonista de colossal entrega: Luiza Mariani.
O projecto nasceu do impulso da própria atriz, que participou em O Grande Circo Místico (2018) e O Passageiro – Segredos de Adulto (2006). Luiza regressa num registo quase bressoniano, em que o silêncio, combinado com o olhar vítreo, gera distanciamento — e, com ele, reflexão. Numa alquimia plena com Flavia, esta intérprete de fala firme dá corpo à vida constantemente espancada da operária Dayse, funcionária de uma gráfica com destacada aptidão para a escrita, que sonha ser reconhecida como dramaturga. Vive numa São Paulo conservadora, no início do século XX, a mesma que viria a produzir a Semana de Arte Moderna. A inspiração (livre) é Maria de Lourdes Castro Pontes (1900-1919), autora designada alternadamente por Deisi, Daisy, Dasinha, Miss Tufão e Miss Cyclone.
Em competição pelo Prémio Redentor no Festival do Rio, a longa-metragem fala dessa figura como Miss Marx (2020), de Susanna Nicchiarelli, falava da filha do autor de O Capital, Eleanor M. — filme tão convulsivo quanto o de Flavia Castro, com Romola Garai a fazer o que Luiza Mariani aqui faz. Não é a Eleanor real que lá estava, mas um decalque universalizado, erigido como signo de empoderamento. A Daisy de Cyclone desempenha função semelhante: opera como símbolo das opressões sobre o feminino. A crueldade aguda que a cerca, contrastada com a vontade de potência indómita que a move, garantiu à produção brasileira presença em mostras na China e na Alemanha.
O argumento, assinado por Rita Piffer, foge à subserviência da causalidade clássica (causa-efeito), aprofundando-se, sempre que pode, na cidade onde vive — a maior metrópole do país. Luiza produziu o filme em conjunto com Joana Mariani e Eliane Ferreira, numa coprodução luxuosa com Walter Salles e Maria Carlota Bruno. O elenco reúne Karine Teles, Eduardo Moscovis, Luciana Paes (num registo notável), Magali Biff e Ricardo Teodoro. A distribuição cabe à Bretz Films, com estreia prevista para o segundo semestre.
Na narrativa filmada por Flavia, Dayse divide o tempo entre a gráfica onde trabalha e o Theatro Municipal, onde colabora em segredo — e mantém um romance — com o encenador e dramaturgo Heitor Gamba (Moscovis, sempre assertivo), homem casado e respeitado como autor teatral. Enquanto se esforça por obter uma bolsa de estudos em Paris, surge uma gravidez inesperada, que decide interromper de modo gélido e brutal. Tão fria quanto a agulha que usa é a sucessão de impedimentos impostos à escritora para travar a sua viagem à Europa — e à consagração. Inclua-se aí a índole tortuosa de Gamba.
Na base do que vemos estão referências explícitas a O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo, de Oswald de Andrade (1890-1954), e Neve na Manhã de São Paulo, de José Roberto Walker. A realização, porém, conduz o público a um registo sufocante, quase kafkiano, à maneira de O Processo, ao expor a burocracia sexista que obriga Cyclone a obter autorizações masculinas para viajar. Num mundo saturado de “nãos”, a personagem de Luiza diz “sim” à arte, sem medo de retaliações e sem medir o preço existencial da liberdade de criar. É belo ver Flavia Castro dizer “sim” a essa figura, espelhando o seu calvário no colorido denso da fotografia de Heloisa Passos — no auge técnico e artístico do seu trabalho com a luz. A montagem, assinada por Joana Collier em parceria com a própria Flavia, galvaniza as angústias dessa incansável artista a quem São Paulo foi madrasta — das más.



















