Vencedor do prémio de Melhor Filme e Melhor Montagem, atribuído a Rafał Listopad, no Festival Internacional de Cinema Documental de Amesterdão (IDFA), “Trains”, do veterano documentarista polaco Maciej J Drygas, é uma profunda viagem ao passado e “às consequências positivas e negativas da inovação industrial moderna”, através do foco no transporte ferroviário, ou seja, ao que vulgarmente chamamos comboio em Portugal e trem no Brasil.
Nascido algures na mente do cineasta em 2014, a partir de uma primeira ideia anotada numa folha que dizia que “os comboios serviam de metáfora para a vida”, “Trains” é totalmente construído a partir de imagens de arquivo, marcando a terceira incursão de Maciej J Drygas pelas vias do “found footage”, depois de “One Day in People’s Poland”, que explorava um dia comum (27 de setembro de 1962) na Polónia comunista, e “Violated Letters”, baseada em correspondência privada interceptada ilegalmente e lida pelos serviços de segurança polacos entre 1945 e 1989.
Tanto relato histórico da serialização de construção das locomotivas, como exploração do que as viagens de comboio simbolizaram na Europa do século XX, “Trains” tem demarcado cada uma das suas cenas num tempo, mas de forma abstrata consegue ainda uma forma intemporal, principalmente que concerne à habitual condição do ser humano em inventar algo tecnologicamente brilhante, a pensar no “bem“, para depois o utilizar ao serviço da guerra.
Todo ele apresentado a preto e branco e com uma engenharia de som que acelera a perceção do espectador para a atmosfera dos diferentes tempos que o filme atravessa, “Trains” começa com cenas da construção cuidada de locomotivas a vapor, enchendo-se as estações ferroviárias de passageiros sorridentes que embarcam em viagens que aproximaram gloriosamente cidades e pessoas. Infelizmente, como nos diz a história da humanidade, os sorrisos foram rapidamente substituídos pela apreensão da chegada de duas grandes guerras mundiais, na qual a circulação ferroviária serviu, essencialmente, para transportar soldados, presos de guerra, refugiados, feridos, e armas que se expandiram pelo território mais rapidamente que por via marítima ou rodoviária.
Se pensarmos bem, aquele que viaja de comboio, ao contrário do que navega ou conduz um automóvel, observa principalmente a paisagem a partir de uma perspetiva lateral, servindo essa janela para a paisagem como um quadro vivo de imagens em movimento não diferente daquilo que o cinema se tornaria. É assim impossível separar, de certa maneira, essa janela da invenção chamada cinema, que surgiria pouco mais de 80 anos depois de Richard Trevithick colocar a rodar a primeira locomotiva movida com um motor a vapor (1804).
Curiosamente, ou não, um dos primeiros filmes da história foi “L’Arrivée d’un train en gare de La Ciotat” (A Chegada de um Comboio/Trem à estação), mostrando uma conexão eterna entre cinema e transporte ferroviário, algo que o realizador sublinha ao colocar em cena o famoso Charlie Chaplin, na sua personagem do vagabundo, a sair de uma composição. É assim através das imagens dessa invenção chamada cinema, cerca de 600 cenas requisitadas a partir de 46 dos 90 arquivos consultados em todo o mundo, que Maciej J Drygas e o seu montador habitual transcendem da pura observação histórica para criar um objeto de reflexão humana, onde tecnologia, política e sociedade se cruzam, seja na beleza, alegria e esperança, seja dor, luto e morte. E a citação de Kafka, logo no início do documentário, reflete bem isso e deixa antever o que nos espera: “Há uma quantidade infinita de esperança no universo… Mas não para nós.“




















