Sessões na Cinemateca – Escolhas de 24 a 29 de janeiro

(Fotos: Divulgação)

O programa “Sven Nykvist – O Culto da Luz Viva”, dedicado ao diretor de fotografia sueco, tem celebrado nas salas da Cinemateca o trabalho profundamente influente na sétima arte deste artista. Assinala-se em 2022 o centenário do nascimento de Nykvist, pretexto para celebrarmos as suas imagens naturalistas, simples, subtis e ligeiras, que o artista abordava de uma forma existencial e espiritual. Embora o reconhecimento internacional de Nykvist se tenha devido sobretudo à intensa e cúmplice colaboração que manteve com Ingmar Bergman, a partir dos anos 1970 o sueco trabalhou sobretudo fora do seu país. Esta semana recomendamos dois dos seus trabalhos com grandes cineastas, Andrei Tarkovski e Philip Kaufman.

Paralelamente, a retrospetiva monumental à obra de Allan Dwan, a maior alguma vez dedicada a este realizador, continua a correr a todo o gás, com mais de 25 filmes a serem exibidos este mês, alguns dos quais os mais consagrados da extensíssima carreira do cineasta, e outros tantos por descobrir. Esta semana destacamos um deles.

Salientamos ainda duas sessões que integram programas habituais desta “casa” que é a Cinemateca. Uma delas é na verdade dupla: a rubrica “Double Bill”, criada em 2015 mas interrompida pela pandemia, volta este mês com o seu modelo clássico, numa lógica de estabelecer pontes entre dois filmes, pondo-os em diálogo, em rima, numa montagem mais ou menos declarada. A outra é uma sessão na Cinemateca Júnior que é um regalo para crianças com sentido de humor negro, dos doze aos cem anos.

Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 24 a 29 de janeiro:

Offret (O Sacrifício, 1986) – Quarta-feira, 26 de janeiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro // Sábado, 29 de janeiro, 19h30, Sala Luís de Pina. “Este filme”, explicou Andrei Tarkovski, “é uma parábola, onde cada episódio pode ser interpretado de várias maneiras”. Offret foi o último filme do cineasta russo, um dos grandes cultores modernos do plano-sequência, aqui com a ajuda da direção de fotografia magistral de Sven Nykvist. Foi rodado na Suécia, próximo da ilha de Farö, com vários colaboradores de Bergman para além de Nykvist, entre eles o ator principal, Erland Josephson. A última obra-prima de um dos maiores mestres da sétima arte.

The Unbearable Lightness Of Being (A Insustentável Leveza do Ser, 1988) – Quinta-feira, 27 de janeiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Baseado no célebre romance de Milan Kundera (1984), com argumento de Philip Kaufman e Jean-Claude Carrière, este filme, também realizado por Kaufman, leva-nos à Checoslováquia da Primavera de Praga antes da invasão soviética de agosto de 1968, centrando-se nos seus efeitos políticos e nos destinos pessoais de três personagens envolvidas num singular ménage à trois, interpretadas por Daniel Day Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin. Foi a terceira e última nomeação aos Ocars do diretor de fotografia Sven Nykvist.

Brewster’s Millions (Uma Mulher e Sete Milhões, 1945) – Sexta-feira, 28 de janeiro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Uma comédia que se destaca das outras de Dwan com Dennis O’Keefe por ter uma história muito mais original e por configurar uma espécie de “ensaio sobre a economia” na linha do que o realizador viria a fazer três anos mais tarde em The Inside Story. O princípio é genialmente simples: um ex-soldado acabado de regressar dos campos de batalha da II Guerra, a voltar à vida civil sem um tostão no bolso, recebe uma herança de sete milhões na condição de gastar um milhão no mês que falta para o seu trigésimo aniversário, e mantendo absoluto sigilo sobre todo o assunto. Como é óbvio, território propício a dúzias de quiproquós, que Dwan explora brilhantemente.

Neco z Alenky (Alice, 1988) – Sábado, 29 de janeiro, 15h00, Salão Foz. Uma versão memorável e bizarra do romance de Lewis Carroll Alice no País das Maravilhas, que mistura uma menina real, a Alice, com uma grande variedade de criaturas animadas em stop motion, desde o complexo Coelho Branco até à simples Lagarta (uma meia com um par de olhos de vidro e uma dentadura). A história original é seguida de forma muito livre, embora aqueles que estão familiarizados com os filmes do realizador checo não fiquem surpresos com o surrealismo do universo Švankmajer, com olhos de vidro, ossadas, pregos e tesouras, dentaduras ou pedaços de carne animados. Como diz a narração de abertura, é um filme feito para crianças… talvez…?!

Ratboy (Ratboy – Perdido na Multidão, 1986) & Mask (A Máscara, 1985) – Sábado, 29 de janeiro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Para Peter Bogdanovich, Mask foi um filme de sucesso comercial, mas também de desentendimentos vários (com o produtor pelo “final cut”; pelas intromissões na banda sonora; com a atriz protagonista durante a rodagem). A história é baseada na vida prematuramente interrompida de Roy L. “Rocky” Dennis, um rapaz que sofria de uma doença rara. Cher conquistou o prémio de melhor atriz no Festival de Cannes de 1985 pela sua prestação como mãe do rapaz, que tinha uma grande deformação no crânio. Um “lado B”, muito negro, para o Mask de Bogdanovich é Ratboy, a primeira experiência (de um total de quatro) de Sondra Locke como realizadora, mais conhecida como atriz. O filme, que foi pessimamente recebido, é notável, um dos mais estranhos e indefiníveis filmes americanos da década de oitenta, uma fábula sobre a “diferença” e a “discriminação” (o “rapaz-rato”, cuja origem o filme nunca explica, é um “contentor” metafórico que pode ser preenchido com a forma concreta que o espectador quiser), tanto como sobre o “espectáculo” e sobre a inevitabilidade da violência na relação entre a “norma” e a “anomalia”.

Nota: Um filme de Allan Dwan que recomendámos na semana passada, Slightly Scarlet (O Anjo Escarlate, 1956), voltará a ser exibido esta semana.

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