Sessões na Cinemateca – Escolhas de 17 a 22 de janeiro

(Fotos: Divulgação)

A retrospetiva monumental à obra de Allan Dwan, a maior alguma vez dedicada a este realizador, continua a correr a todo o gás nas salas da Cinemateca, com mais de 25 filmes a serem exibidos este mês, alguns dos quais os mais consagrados da extensíssima carreira do cineasta, e outros tantos por descobrir. Esta semana destacamos dois deles.

Paralelamente decorre o programa “Sven Nykvist – O Culto da Luz Viva”, dedicado ao diretor de fotografia sueco cujo trabalho foi profundamente influente na sétima arte. Assinala-se em 2022 o centenário do nascimento de Nykvist, pretexto para celebrarmos as suas imagens naturalistas, simples, subtis e ligeiras, que o artista abordava de uma forma existencial e espiritual. Embora o reconhecimento internacional de Nykvist se tenha devido sobretudo à intensa e cúmplice colaboração que manteve com Ingmar Bergman, a partir dos anos 1970 o sueco trabalhou sobretudo fora do seu país. Esta semana recomendamos dois dos seus trabalhos com grandes realizadores europeus, Louis Malle e Roman Polanski.

Salientamos ainda duas sessões que integram programas habituais “da casa”. Uma delas faz parte do regresso da rubrica “Inadjectivável”, que, ao ritmo de um filme por mês, mostra obras para cuja beleza, ou para cuja grandeza, nunca há qualificativos suficientes – retomando as palavras de João Bénard da Costa, a quem a rubrica toma emprestado o título e serve de homenagem. A outra sessão é na verdade dupla: a rubrica “Double Bill”, criada em 2015 mas interrompida pela pandemia, volta este mês com o seu modelo clássico, numa lógica de estabelecer pontes entre dois filmes, pondo-os em diálogo, em rima, numa montagem mais ou menos declarada.

Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 17 a 22 de janeiro:

Cattle Queen of Montana (A Rainha da Montanha, 1954) – Segunda-feira, 17 de janeiro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos belos westerns de Dwan conjugados no feminino, com Barbara Stanwyck na pele de uma rancheira do Montana envolvida numa disputa de terras com uma família de usurpadores. Dwan e o diretor de fotografia, John Alton, fazem maravilhas com as cores das paisagens naturais do Montana, Ronald Reagan consegue a proeza de parecer um bom ator, e Barbara Stanwyck confirmava-se como a maior atriz da história do western.

Le Locataire (O Inquilino, 1976) – Segunda-feira, 17 de janeiro, 19h30, Sala Luís de Pina. Adaptado de Le Locataire Chimérique (1964), de Roland Topor, rodado entre Chinatown (1974) e Tess (1979), este filme de Roman Polanski, também conhecido pelo título internacional, The Tenant, segue a história de um tipo reservado que visita um apartamento para alugar, vago depois do suicídio do arrendatário anterior. O tipo é Trelkovsky, personagem interpretada pelo próprio Polanski, cujo percurso no filme é o de uma paranoia crescente que passa pela suposição de que todos os vizinhos possam cometer suicídio. A fotografia de Sven Nykvist é deliciosa.

Slightly Scarlet (O Anjo Escarlate, 1956) – Terça-feira, 18 de janeiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Para muitos é a obra-prima do derradeiro período de Dwan, asserção com que se pode concordar desde que se acrescente mais uma meia-dúzia de títulos. Certo é que o “noir” colorido (sempre o incomparável John Alton) desta história, tirada a um romance de James M. Cain, entre o filme de gangsters, a intriga política e o thriller psicológico mais ou menos vampírico, é inultrapassável, configurando um dos grandes momentos não apenas de Dwan mas de todo o cinema americano dos anos cinquenta. Esta é também uma ocasião para um duplo “in memoriam”, pois só recentemente faleceram as duas protagonistas femininas, Rhonda Fleming em 2020 e Arlene Dahl em novembro passado. O filme voltará a ser exibido na segunda-feira, 24 de janeiro, às 15h30 na Sala M. Félix Ribeiro.

Black Moon (1975) – Segunda-feira, 17 de janeiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro // Quarta-feira, 19 de janeiro, 19h30, Sala Luís de Pina. Um dos mais experimentais e distópicos filmes de Louis Malle, Black Moon centra-se numa jovem (Cathryn Harrison) que, ao tentar escapar de um mundo distópico e pós-apocalíptico, devastado por uma misteriosa guerra dos sexos, encontra refúgio numa casa isolada no campo, onde começa uma surrealista e freudiana odisseia evocativa do universo de Lewis Carroll. Nesta casa, interage com uma bizarra família que comunica telepaticamente, animais que falam, flores que choram quando são pisadas e com um unicórnio que testa a sua consciência. Através do enigma, do sonho e da alegoria, Malle desconstrói conceitos como a violência, a inocência, o pecado e a sexualidade adolescente.

Roma, Città Aperta (Roma, Cidade Aberta, 1945) – Sexta-feira, 21 de janeiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Realizada imediatamente a seguir ao fim da Segunda Guerra Mundial, esta obra-prima absoluta de Roberto Rossellini é o filme que lança aquilo a que se convencionou chamar o “neorrealismo”. História de resistência durante a ocupação nazi, com um padre e um comunista aliados na causa comum e Anna Magnani num dos seus papéis mais emblemáticos – a sequência da sua morte é das mais prodigiosas na obra de Rossellini. No cinema italiano, recém-saído do “escapismo” do cinema do período fascista, Roma, Città Aperta teve o efeito de uma bomba. O seu poder emocional continua intacto.

Carnival of Souls (1962) & Der Tod der Maria Malibran (A Morte de Maria Malibran, 1971) – Sábado, 22 de janeiro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Herk Harvey, que teve uma longa carreira como realizador de filmes educativos, lançou-se em Carnival of Souls, um filme de baixíssimo orçamento, feito longe de Hollywood. Um notável e raro pequeno filme de terror, que parte da morte por afogamento de um grupo de raparigas, num acidente de viação, e da posterior aparição de uma delas como organista de igreja. Também autor do argumento, Harvey imaginou-o a partir da visão de “pessoas mortas a dançar num salão de baile no Great Salt Lake”. Já Werner Schroeter impôs-se desde as suas primeiras obras como um dos maiores nomes do cinema alemão ao apresentar um universo único, que conjuga domínios como a ópera, o teatro, a literatura e a pintura. Sétima longa-metragem do realizador, Der Tod der Maria Malibran é um dos seus filmes mais célebres e mais belos, de um período particularmente fecundo do seu trabalho. Inspirando-se no mito de uma célebre cantora de inícios do século XIX, é um filme sobre os mitos da ópera, feito por um apaixonado pelo género. Uma das grandes obras de um poeta do cinema, um dos raros cineastas verdadeiramente independentes.

Nota: Duas obras de Allan Dwan que recomendámos na semana passada, Heidi (1937) e Tennessee’s Partner (Rivalidade, 1955), voltarão a ser exibidas esta semana.

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