Sessões na Cinemateca – Escolhas de 10 a 15 de janeiro

(Fotos: Divulgação)

A retrospetiva monumental à obra de Allan Dwan, a maior alguma vez dedicada a este realizador, continua a correr a todo o gás nas salas da Cinemateca, com mais de 25 filmes a serem exibidos este mês, alguns dos quais os mais consagrados da extensíssima carreira do cineasta, e outros tantos por descobrir. Esta semana destacamos três deles.

Paralelamente decorre o programa “Sven Nykvist – O Culto da Luz Viva”, dedicado ao diretor de fotografia sueco cujo trabalho foi profundamente influente na sétima arte. Assinala-se em 2022 o centenário do nascimento de Nykvist, pretexto para celebrarmos as suas imagens naturalistas, simples, subtis e ligeiras, que o artista abordava de uma forma existencial e espiritual. Embora o reconhecimento internacional de Nykvist se tenha devido sobretudo à intensa e cúmplice colaboração que manteve com Ingmar Bergman, a partir dos anos 1970 o sueco trabalhou sobretudo fora do seu país, particularmente nos Estados Unidos, tendo sido o primeiro europeu a integrar a American Society of Cinematographers. Esta semana recomendamos o seu melhor trabalho neste país com outro dos seus principais colaboradores, Woody Allen.

Também esta semana se inicia o programa “Bernardo Sassetti – A Música como Ficção”, um ciclo que presta homenagem ao compositor, 10 anos após a sua morte, mostrando os filmes em que o seu fulcral trabalho dentro do cinema português teve maior relevância. Sassetti (1970-2012), músico tão importante pela sua virtuosa carreira como compositor e como pianista, foi um nome fundamental da composição para cinema: nenhum outro compositor português conta com uma tão ampla quantidade de bandas sonoras no currículo, marcando um percurso de íntima relação entre a música e a imagem. Ao longo de menos de dez anos, assinou a composição da música de quase duas dezenas de filmes nacionais, um dos quais salientamos esta semana.

Finalmente, sugerimos ainda uma visita à Cinemateca Júnior para ver um filme de simplicidade lúcida e bela que valeu a Céline Sciamma uma distinção no Festival de Berlim de 2011.

Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 10 a 15 de janeiro:

The Iron Mask (Máscara de Ferro, 1929) – Segunda-feira, 10 de janeiro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro, com acompanhamento ao piano por Filipe Raposo // Quinta-feira, 13 de janeiro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Esta versão da clássica história dos mosqueteiros de Alexandre Dumas foi uma das mais luxuriantes Dwan e uma espécie de canto do cisne perfeitamente assumido. É o fim do cinema mudo, e é praticamente o fim da carreira de Douglas Fairbanks, que não sobreviveu como vedeta à chegada do sonoro. Todos pareciam ter consciência de que estava um mundo a acabar, e a prova disso é que foi a única vez que Fairbanks (na pele de D’Artagnan) aceitou que a sua personagem morresse no final. É uma obra-prima, significativa na história de Hollywood, na história de Fairbanks, e na história de Allan Dwan, que nunca mais se viu envolvido em produções com este nível de grandeza.

Crimes and Misdemeanors (Crimes e Escapadelas, 1989) – Terça-feira, 11 de janeiro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro // Quarta-feira, 12 de janeiro, 19h30, Sala Luís de Pina. Este é um dos projetos mais ambiciosos e mais bem conseguidos da carreira de Woody Allen, bem como um dos melhores trabalhos de Sven Nykvist nos Estados Unidos. Misto de drama e comédia, é composto por duas histórias paralelas que convergem para um encontro final, onde Allen, na figura de um realizador de documentários, encontra Martin Landau, um oftalmologista que resolve “drasticamente” a situação melindrosa para a qual a amante queria empurrá-lo.

Tennessee’s Partner (Rivalidade, 1955) – Quarta-feira, 12 de janeiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Uma obra-prima do western de belíssimas cores tingidas por um negrume psicológico devedor da tradição do “noir”, Tennessee’s Partner conta a história de uma associação de personagens nas margens da legalidade (um pesquisador de ouro, um jogador de casinos, a “madame” de um bordel) com o intuito de descobrirem e tomarem posse de uma mina de ouro algures na Califórnia. As lealdades são incertas, a desconfiança paira sobre todos, as personagens são construídas com uma subtileza incrível. Destaque para a presença de Ronald Reagan numa personagem homoerótica. Uma segunda exibição terá lugar dia 19 de janeiro, quarta-feira, pelas 15h30 na Sala M. Félix Ribeiro.

Alice (2005) – Quinta-feira, 13 de janeiro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. A estreia na longa-metragem de Marco Martins evolui em torno do drama de um jovem casal, cuja filha pequena desapareceu há alguns meses. O pai (Nuno Lopes) dedica-se a uma rotina obsessiva, percorrendo diariamente os locais por onde passava com a miúda, colando cartazes, e verificando uma rede de câmaras de vídeo espalhadas por uma Lisboa soturna e chuvosa, sempre à cata de indícios que o ponham na pista da filha. Música de Bernardo Sassetti.

Heidi (1937) – Sexta-feira, 14 de janeiro, 19h30, Sala Luís de Pina. Certamente a melhor adaptação cinematográfica das histórias da órfã dos Alpes criada pela escritora suíça Johana Spyri, este foi também o filme que salvou (temporariamente) a carreira da pequena Shirley Temple do declínio inevitável com o tempo. É um filme ágil e imaginativo, que Allan Dwan encarou com o mais profissional dos empenhos, e de que nunca deixou de gostar: “é dos melhores filmes com Shirley Temple, até porque é aquele em que canta menos”. Na terça-feira, 18 de janeiro, a sessão repetir-se-á às 15h30 na Sala M. Félix Ribeiro.

Tomboy (Maria Rapaz, 2011) – Sábado, 15 de janeiro, 15h00, Salão Foz. Uma família muda-se para um novo bairro e Laure, a filha de dez anos, que prefere o futebol às brincadeiras de bonecas e calções a vestidos, aproveita um mal-entendido e apresenta-se aos novos vizinhos como um rapaz chamado Mikhael. As suspeitas que se vão levantando em torno da verdadeira identidade de Mikhael, o final do verão e a aproximação do novo período escolar tornam difícil manter a farsa e Laure vê-se numa encruzilhada. Este grande pequeno filme foi distinguido em Berlim com o prémio Teddy, atribuído ao melhor filme do festival com uma temática LGBT.

Nota: Duas obras de Allan Dwan que recomendámos na semana passada, Silver Lode (Falsa Justiça, 1954) e Passion (Onde Morre o Vento, 1954), voltarão a ser exibidas esta semana.

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