Sessões na Cinemateca – Escolhas de 3 a 8 de janeiro

(Fotos: Divulgação)

Anunciámos há já um mês e meio que a Cinemateca Portuguesa organizaria uma retrospetiva monumental à obra de Allan Dwan durante os meses de dezembro e janeiro, constituindo a maior retrospetiva alguma vez dedicada a este realizador. Agora, a Cinemateca confirma que afinal, e contrariamente ao inicialmente anunciado, o ciclo prolongar-se-á ainda por fevereiro dentro, com a exibição de uma última dúzia de títulos provenientes de diferentes períodos da extensíssima filmografia de Dwan. Este mês de janeiro contamos com mais de 25 filmes, alguns dos quais os mais consagrados do cineasta e outros tantos por descobrir.

Paralelamente decorre o programa “Sven Nykvist – O Culto da Luz Viva”, dedicado ao diretor de fotografia sueco cujo trabalho foi profundamente influente na sétima arte. Assinala-se em 2022 o centenário do nascimento de Nykvist, pretexto para celebrarmos as suas imagens, facilmente reconhecidas pelo ascetismo técnico, pela redução da luz artificial e do excesso dos seus efeitos, em favor da autenticidade da luz natural, almejando imprimir um máximo de expressão de acordo com a lógica dos meios disponíveis. Para Nykvist, a simplicidade é a chave. Trata-se de um naturalismo expressivo em que a luz catalisa as narrativas através de pormenores e subtilezas, criando uma direção de fotografia impressa tanto na aridez da luz que ilumina as paisagens como principalmente na complexidade com que as sombras leves e a profundidade de campo fazem sobressair os rostos das personagens.

O reconhecimento internacional de Nykvist deveu-se sobretudo à intensa e cúmplice colaboração que manteve com Ingmar Bergman a partir de 1953, que contou com 17 filmes e marcou indelevelmente as carreiras dos dois artistas. Ambos admitem ter nutrido uma relação de crescimento recíproco, dada a influência do seu passado religioso (ambos eram filhos de pastores luteranos), assim como a admiração pela parca e austera luminosidade dos crepúsculos suecos, o que alimentou e definiu uma abordagem da imagem tanto existencial como espiritual. Mas nem só da ligação a Bergman se fez a fama de Nykvist como um dos mais importantes diretores de fotografia da história do cinema. A partir dos anos 1970, trabalhou sobretudo fora da Suécia, particularmente nos Estados Unidos, onde estabeleceu com Woody Allen (explícito admirador da cinematografia de Bergman) uma nova colaboração regular, tendo sido o primeiro europeu a integrar a American Society of Cinematographers. Ainda assim, foi na Europa que sempre fez os seus melhores trabalhos pós-Bergman, tendo participado em filmes de Louis Malle, Roman Polanski, assim como no último filme de Andrei Tarkovski, todos incluídos neste ciclo.

Embora estes sejam os dois grandes programas a marcar mais um mês de sessões de cinema na Cinemateca, destacam-se ainda filmes projetados na Cinemateca Júnior e escolhas dos espetadores integrantes do ciclo habitual “O Que Quero Ver”.

Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 3 a 8 de janeiro:

Älskande Par (Amor em Tons Eróticos, 1964) – Segunda-feira, 3 de janeiro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro // Quarta-feira, 5 de janeiro, 19h30, Sala Luís de Pina. Mai Zetterling (1925-1994) formou-se no Conservatório de Teatro de Estocolmo e fez uma dupla carreira como atriz e realizadora, tendo realizado nada menos que 18 longas-metragens. Em Älskande Par, três mulheres grávidas rememoram as suas vidas sexuais. Jon Wengström considera-o “o melhor filme da melhor realizadora sueca”, ao passo que o escritor Claude Ollier opinou: “É uma obra cerrada mas nada confusa, pródiga sem dilapidação, elegante sem maneirismo. A realizadora sueca exprime-se num registo que se situa entre a austeridade desconfortável de Bergman e o barroquismo melodramático de Sjöberg”.

Woman They Almost Lynched (1953) – Segunda-feira, 3 de janeiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro // Quinta-feira, 6 de janeiro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos melhores westerns de Allan Dwan. Ambientado durante a Guerra Civil, numa cidadezinha ao longo da fronteira entre o Norte e o Sul que se mantém ferozmente neutral e pacifista – mesmo que à custa do linchamento sumário de quem quer que venha, de um lado ou do outro, perturbar a neutralidade e a paz. A líder da cidade é uma mulher, e as personagens femininas são proeminentes, num filme que sub-repticiamente resvala para a “guerra de sexos” como a praticavam as screwballs. Dwan carregou nessa nota – a comédia – sem avisar os atores: “eles depois iam tentar ser engraçados”…

Être et Avoir (Ser e Ter, 2002) – Quarta-feira, 5 de janeiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um documentário que constituiu um inesperado sucesso de bilheteira internacional, e que nos conta a vida e as experiências educativas de um professor e dos seus alunos numa região rural da França ao longo de um ano letivo. A passagem das estações do ano e os pequenos rituais escolares marcam o ritmo contemplativo de um documentário construído em modo observacional e capaz de dar conta da complexidade deste pequeno mundo e da relação entre as crianças e os adultos que zelam pela transmissão de saberes e pelos processos de socialização numa determinada comunidade.

Passion (Onde Morre o Vento, 1954) – Quinta-feira, 6 de janeiro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Um filme do admirável período final de Dwan em que, trabalhando para o produtor Benedict Bougeaus, encavalitou obras-primas sobre obra-primas, muitas delas visitando os territórios do western, quase todas exibindo uma espécie de barroquismo discreto onde as cores e as sombras se mesclam maravilhosamente (John Alton, responsável pela fotografia desta obra, foi um dos principais colaboradores de Dwan nesta fase). Passion é um dos grandes exemplos dessa luxúria conseguida com cinco tostões, numa história de vinganças e perseguições passada na Califórnia (ainda) mexicana, onde Yvonne De Carlo tem um duplo papel, fazendo de duas irmãs gémeas. Na segunda-feira, 10 de janeiro, o filme volta a ser exibido às 15h30, na Sala M. Félix Ribeiro.

L’ Illusionniste (O Mágico, 2010) – Sábado, 8 de janeiro, 15h00, Salão Foz. É a segunda longa-metragem de animação do francês Sylvain Chomet, depois do popular Les Triplettes de Belleville, nomeado para dois Oscars em Hollywood. Em L’Illusionniste, Chomet inspira-se num guião original de Jacques Tati, nunca filmado, narrando o encontro, numa cidade costeira escocesa, entre um ilusionista francês e uma jovem local. Os dois encontram-se porque o mágico parte em digressão por lugares distantes, perante o fim anunciado dos espetáculos de music-hall no tempo do rock‘n’roll. Esse encontro irá marcar a vida de ambos para sempre neste belo e melancólico filme.

Silver Lode (Falsa Justiça, 1954) – Sábado, 8 de janeiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Foi o filme inaugural da colaboração de Allan Dwan com o produtor Benedict Bougeaus, e Silver Lode, um western, também ficou como um dos mais célebres títulos dessa época, muito por causa da sua narrativa onde toda a gente viu uma incidência política, e uma alegoria do macarthismo. Dwan não renegava totalmente essa dimensão, mas resumia o filme de maneira mais simples: “um homem condenado com base numa mentira, e depois ilibado com base noutra mentira”. É também o primeiro de vários filmes de Dwan com John Payne, de que o realizador, ao contrário do que sucedeu com os atores que lhe impunham, gostava bastante. Na terça-feira, 11 de janeiro, haverá uma segunda sessão pelas 19h00 na| Sala M. Félix Ribeiro.

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