Tal como anunciado pelo C7nema, em dezembro a Cinemateca propõe um ciclo monumental em torno da obra de Allan Dwan, a maior retrospetiva de sempre feita a este cineasta. Formado em engenharia, e com especialização nas artes e técnicas da eletricidade, a sua entrada no cinema, naqueles anos em que tudo estava por inventar e descobrir, foi feita por esse prisma: a do homem a quem competia inventar soluções para os problemas técnicos que a rodagem dos filmes ia descobrindo. Também por isso, foi um dos pioneiros da indústria cinematográfica americana, que ele próprio ajudou a estabelecer, por exemplo durante o seu trabalho com D. W. Griffith. O seu trabalho como realizador, cruzando diversas décadas, faz um percurso por todo o classicismo americano, começa aliás antes dele, num período pré-clássico, e termina no momento em que esse edifício clássico começava a desmoronar-se. Polivalente e eclético, Dwan tocou todos os géneros, do musical ao filme de guerra, do melodrama ao noir, do western à comédia, com o mesmo pragmatismo, a mesma inteligência, a mesma modéstia de artesão, as mesmas elegância e imaginação na invenção de ideias visuais e narrativas. Esteve esquecido durante demasiados anos, arrumado como “relíquia” de outros tempos, curiosidade “arqueológica”, e retorna agora ao seu devido lugar na história do cinema.
Em simultâneo, decorre o ciclo “Simone Signoret e Yves Montand: Caminhos Paralelos”, sobre dois grandes atores do cinema francês. Simone Signoret (1921-1985) e Yves Montand (1921-1991) formaram, a partir dos anos 50, um dos grandes casais míticos do cinema. Os dois conheceram-se em 1949, quando as suas carreiras já tinham sido lançadas e permaneceram juntos até à morte de Signoret. Ambos foram companheiros de viagem no Partido Comunista e no domínio da militância política. Mas se as vidas de Signoret e Montand nunca se apartaram, apesar de diversos percalços, as suas carreiras (e, além de ator, ele era um não menos célebre cantor) foram paralelas, duas linhas que seguem a mesma direção, mas nunca se tocam: os dois quase nunca atuaram juntos no cinema e quando o fizeram a sua presença simultânea no ecrã foi muito breve. Por isso, em vez de um ciclo Yves Montand/Simone Signoret, teremos dois ciclos simultâneos e paralelos, um que acompanha o percurso de Simone Signoret, outro que segue o de Yves Montand.
Finalmente, este mês vê o retorno do ciclo “O Que Quero Ver”, interrompido pela pandemia, que regressa para fechar o ano de 2021 em versão “expandida”, com onze títulos solicitados diretamente pelos espectadores da Cinemateca que resultam num programa eclético.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 13 a 18 de dezembro:

Manhandled (Escravizada, 1924) – Terça-feira, 14 de dezembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro, com acompanhamento ao piano por Daniel Schvetz. Uma das vedetas de alto coturno nos apogeus do cinema mudo que tinha Allan Dwan como realizador de eleição era Gloria Swanson. Dos vários filmes que fizeram juntos, Manhandled era o preferido do cineasta. Por boas razões, porque se trata de um excelente filme, perfeitamente em linha com o que de mais sofisticado se praticava na Hollywood da época, quer em termos de conteúdo sociopolítico – é um filme completamente “proto-feminista”, narrando, entre um tom de comédia mordaz e um tom mais dramático, as agruras de uma mulher num mundo laboral dominado por homens –, quer em termos de invenção formal, e aqui o filme está cheio de achados e ideias brilhantes de mise-en-scène.

La Guerre Est Finie (A Guerra Acabou, 1965) – Quarta-feira, 15 de dezembro, 19h30, Sala Luís de Pina. Com argumento de Jorge Semprun, esta é a primeira e única incursão de Alain Resnais no cinema político. Este filme desencantado mostra as peripécias de um militante antifranquista, membro do Partido Comunista espanhol, exilado em França, que continua a fazer viagens clandestinas a Espanha, até se aperceber que “a guerra acabou” e que o tipo de militância que ele exerce está cada vez mais afastado da realidade espanhola. Realizado num estilo totalmente diferente dos filmes que tinham feito a celebridade de Alain Resnais, La Guerre Est Finie é um exemplo único na sua obra de uma narrativa contínua, ao modo clássico. Yves Montand, “companheiro de viagem” do Partido Comunista durante alguns anos, é o intérprete perfeito para a personagem.

Driftwood (1947) – Quinta-feira, 16 de dezembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um Dwan do pós-guerra, período em que o cineasta passou a trabalhar quase exclusivamente para produtores independentes e pequenos estúdios de “série B”. Aproveitando o traquejo ganho no trabalho com crianças desde que, nos anos trinta, foi durante algum tempo o realizador encarregado de filmar os “veículos” com Shirley Temple, Dwan dirige a muito jovem Natalie Wood num filme que associa os tropos clássicos dos filmes com crianças (as relações com os animais de estimação, por exemplo, neste caso um cãozinho) a um retrato de lugar (uma pequena vila do interior dos EUA). O clímax, a noite da doença da miúda, é fabuloso, e Driftwood um exemplo brilhante da mestria de Dwan.

The Inside Story (1948) – Sexta-feira, 17 de dezembro, 19h30, Sala M. Luís de Pina. The Inside Story é uma comédia otimista sobre a economia. “Havia uma grande crise e quis mostrar que o pior sítio para se ter o dinheiro era imobilizado num banco; o dinheiro tinha que circular!”, explicou Allan Dwan. E, num espírito que se aproxima das fábulas de Capra, o realizador mostrava o efeito da circulação dos mesmos mil dólares por uma quantidade enorme de gente, e a forma como esse dinheiro vai resolvendo problemas por onde passa.

Le Chat (O Gato, 1971) – Sábado, 18 de dezembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Num dos seus últimos filmes, Jean Gabin faz o papel de um operário reformado que vive com a mulher num subúrbio de Paris. O casal passou a odiar-se de tal modo que já nem se fala, enquanto assiste impotente ao fim do seu mundo, materializado pela demolição progressiva do bairro onde vivem e pela sua substituição por prédios modernos. Gabin e Simone Signoret dão uma terrível intensidade ao duelo silencioso e repleto de ódio que se instalou entre os seus personagens. No Festival de Berlim, Gabin e Signoret receberam os prémios de melhor ator e melhor atriz pelos seus desempenhos, que poderão ser vistos também dia 20 de dezembro, segunda-feira, às 19h30 na Sala Luís de Pina.

The Devils (Os Diabos, 1971) – Sábado, 18 de dezembro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Realizador extraordinariamente polémico, conhecido nalguns circuitos como “o Fellini do Norte”, Ken Russell tem em The Devils aquela que é, para muitos, a sua obra mais definidora. Adaptação de um livro de Aldous Huxley, trata-se de um filme de horror situado em França, no século XVII, em que um padre é acusado de ser responsável pela possessão demoníaca de uma freira (Vanessa Redgrave) viciada em sexo. Considerado herético à época, censurado no Reino Unido e Estados Unidos, o filme é um mostruário da capacidade de Ken Russell para criar uma imagética barroca e chocante.
Nota: Ao longo desta semana vários filmes já sugeridos pelo C7nema na semana passada voltarão a ser exibidos uma segunda vez.

