Sessões na Cinemateca – Escolhas de 6 a 11 de dezembro

(Fotos: Divulgação)

Tal como anunciado pelo C7nema, em dezembro a Cinemateca propõe um ciclo monumental em torno da obra de Allan Dwan, a maior retrospetiva de sempre feita a este cineasta. Formado em engenharia, e com especialização nas artes e técnicas da eletricidade, a sua entrada no cinema, naqueles anos em que tudo estava por inventar e descobrir, foi feita por esse prisma: a do homem a quem competia inventar soluções para os problemas técnicos que a rodagem dos filmes ia descobrindo. Também por isso, foi um dos pioneiros da indústria cinematográfica americana, que ele próprio ajudou a estabelecer, por exemplo durante o seu trabalho com D. W. Griffith. O seu trabalho como realizador, cruzando diversas décadas, faz um percurso por todo o classicismo americano, começa aliás antes dele, num período pré-clássico, e termina no momento em que esse edifício clássico começava a desmoronar-se. Polivalente e eclético, Dwan tocou todos os géneros – do musical ao filme de guerra, do melodrama ao noir, do western à comédia, com o mesmo pragmatismo, a mesma inteligência, a mesma modéstia de artesão, as mesmas elegância e imaginação na invenção de ideias visuais e narrativas. Esteve esquecido durante demasiados anos, arrumado como “relíquia” de outros tempos, curiosidade “arqueológica”, e retorna agora ao seu devido lugar na história do cinema.

Em simultâneo, decorre o ciclo “Simone Signoret e Yves Montand: Caminhos Paralelos”, sobre dois grandes atores do cinema francês. Simone Signoret (1921-1985) e Yves Montand (1921-1991) formaram, a partir dos anos 50, um dos grandes casais míticos do cinema. Os dois conheceram-se em 1949, quando as suas carreiras já tinham sido lançadas e permaneceram juntos até à morte de Signoret. Ambos foram companheiros de viagem do Partido Comunista e no domínio da militância política Montand e Signoret foram, por assim dizer, o equivalente no mundo do cinema de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir e as suas tomadas de posição eram ouvidas com atenção. Mas se as vidas de Signoret e Montand nunca se apartaram, apesar de diversos percalços, as suas carreiras (e, além de ator, ele era um não menos célebre cantor) foram paralelas, duas linhas que seguem a mesma direção, mas nunca se tocam: os dois quase nunca atuaram juntos no cinema e quando o fizeram a sua presença simultânea no ecrã foi muito breve. Por isso, em vez de um ciclo Yves Montand/Simone Signoret, teremos dois ciclos simultâneos e paralelos, um que acompanha o percurso de Simone Signoret, outro que segue o de Yves Montand.

Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 6 a 11 de dezembro:

La Ronde (A Ronda, 1951) – Segunda-feira, 6 de dezembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Esta foi a primeira das quatro obras-primas realizadas no final da carreira de Max Ophüls. Todos os papéis em La Ronde são breves e foi a sua presença neste filme, no papel de uma prostituta, que fez definitivamente de Simone Signoret uma vedeta. O filme adapta uma história de Arthur Schnitzler sobre a “ronda do amor”, com uma série de pares, em que um dos membros vem sempre do par anteriormente mostrado, antes do círculo se fechar sobre a personagem com o qual se abrira, a de Signoret. Toda esta dança de desejos é orquestrada por um demiurgo, Anton Walbrook, que comenta, provoca e interrompe os romances que se distribuem por vários episódios. Um fabuloso desfile de vedetas num dos filmes mais brilhantes de Ophüls, com o seu tom tipicamente agridoce. Uma segunda exibição terá lugar na segunda-feira, dia 13 de dezembro, às 19h30 na Sala Luís de Pina.

Casque d’Or (Aquela Loira, 1952) –Terça-feira, 7 de dezembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos mais belos filmes franceses de sempre, considerado por alguns críticos como a obra-prima de Jacques Becker. Raras vezes, no cinema, uma “reconstituição” de época (o fim do século XIX) conseguiu recriar, de forma tão perfeita, um estilo de vida e o espírito do tempo. A história é situada entre os apaches, termo que designava os bandidos e delinquentes em Paris, na passagem do século XIX para o XX. Esta pintura de um meio social preciso serve de contexto e pretexto para uma história de amor, em que Casque d’Or (Simone Signoret) é a bela amante de um ex-bandido, Manda, na melhor criação de Serge Reggiani no ecrã. A situação cria uma série de tensões e rivalidades e o amante de Casque d’Or acaba traído pelo chefe do grupo. Haverá mais uma oportunidade de ver o filme dia 14 de dezembro, terça-feira, pelas 21h30 na Sala M. Félix Ribeiro.

Sands of Iwo Jima (O Inferno de Iwo Jima, 1949) – Quinta-feira, 9 de dezembro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos melhores filmes de guerra da história do cinema. Allan Dwan deu ao seu filme um tom documental que deixa uma sensação de real em quem o vê. Todas as cenas foram reconstituídas mas muitas delas parecem ser tiradas de documentários. Os atores passaram por severos treinos à semelhança dos verdadeiros “marines” que formam a enorme massa de figurantes. John Wayne, no tradicional papel do sargento duro, mas que vela pelos seus soldados, recebeu aqui a primeira nomeação para o Oscar. Com um milhão de dólares de orçamento (recuperado e multiplicado na bilheteira), foi das produções mais opulentas da Republic e da carreira de Dwan no pós-guerra. A 20 de dezembro, segunda-feira, a sessão repetir-se-á pelas 21h30 na Sala M. Félix Ribeiro.

Thérèse Raquin (Teresa Raquin, 1953) –Sexta-feira, 10 de dezembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Thérèse Raquin é geralmente considerado o último grande filme de Marcel Carné. Trata-se de um drama livremente inspirado no romance de Émile Zola, uma história de paixão obsessiva que conduz ao crime, transposta para Lyon e para o tempo contemporâneo ao da realização. Carné introduz uma personagem nova, o marinheiro, que representa o “Destino” que leva as personagens para a tragédia. Despida dos atributos de mulher sedutora que tinham sido os seus trunfos anteriormente, Simone Signoret dá aqui os primeiros toques na sua futura persona cinematográfica, bela porém recatada, uma mulher que calcula os seus gestos e não age por impulso. Grande Prémio do Festival de Veneza de 1953, o filme poderá também ser visto a 14 de dezembro, terça-feira, às 19h30 na Sala Luís de Pina.

Room at the Top (Um Lugar na Alta Roda, 1959) –Sábado, 11 de dezembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Adaptado de um romance de John Braine, este filme de Jack Clayton é uma obra decisiva do cinema britânico do fim dos anos 1950, uma das muitas peças de transição do cinema clássico para o moderno, ficando um pouco entre os dois do ponto de vista formal. Isto também se reflete no tom do filme (história de um arrivista que manipula duas mulheres para “subir”), num compromisso entre o realismo clássico e a visão amarga dos “angry young men” que se tinham imposto no teatro e no cinema britânicos. O filme de Clayton ganhou dois Oscars, para o argumento de Neil Paterson e para Simone Signoret, no papel da mulher sacrificada. Dia 16 de dezembro, quinta-feira, haverá outra sessão às 19h30 na Sala Luís de Pina.

Le Cercle Rouge (O Círculo Vermelho, 1970) – Sábado, 11 de dezembro, 19h30, Sala Luís de Pina. Uma das grandes obras-primas de Jean-Pierre Melville, que emparelha com Le Samouraï, mas com uma atmosfera menos abstrata do que a desse filme. A narrativa é clássica no cinema policial, com o encontro de dois criminosos que se unem para um assalto, aos quais vem se juntar um terceiro e inesperado cúmplice. Como o de todo o grande filme criminal, o mecanismo é perfeito. É preciso ver a fabulosa sequência da evasão de Gian Maria Volonté, do comboio e a do assalto (cerca de 25 minutos, sem uma palavra de diálogo) para se ter a noção do que é o cinema de Melville: uma organização onde nada falha e tudo está no seu lugar. Excecional presença dos três atores principais: Alain Delon frio e determinado, Yves Montand, arrombador de cofres alcoólico e Bourvil, célebre ator cómico, que faz aqui a sua despedida ao cinema no pungente papel de um polícia solitário. O filme voltará a ser exibido a 28 de dezembro, terça-feira, às 19h30 na Sala Luís de Pina.

Nota: Na segunda-feira, 6 de dezembro, voltará a ser exibido Dedée d’Anvers (Vidas Tenebrosas, 1947), e na quinta-feira, 9 de dezembro, repete-se a sessão de Tout Va Bien (Tudo Vai Bem, 1972), ambos filmes já sugeridos pelo C7nema na semana passada.

Últimas