Sessões na Cinemateca – Escolhas de 29 de novembro a 4 de dezembro

(Fotos: Divulgação)

De novembro para dezembro marca-se a última semana de transição da programação da Cinemateca este ano. Começamos por nos despedir do ciclo “Siamo Donne”, coorganizado pela Cinemateca e pela 14ª Festa do Cinema Italiano, que tem traçado uma genealogia das divas do cinema italiano, percorrendo cerca de 100 anos dessa cinematografia ao sabor dos nomes das suas atrizes mais consagradas. Para celebrar estas afamadas intérpretes, percorremos a evolução desta classe especial de atrizes desde as primeiras divas do mudo até às estrelas de décadas mais próximas de nós, passando pelas vedetas da “idade de ouro” do cinema italiano dos anos de 1950 a 1970.

Em dezembro as prendas são várias. Um delas, já anunciada pelo C7nema, é um ciclo monumental em torno da obra de Allan Dwan, a maior retrospetiva de sempre feita a este cineasta. Formado em engenharia, e com especialização nas artes e técnicas da eletricidade, a sua entrada no cinema, naqueles anos em que tudo estava por inventar e descobrir, foi feita por esse prisma, a do homem a quem competia inventar soluções para os problemas técnicos que a rodagem dos filmes ia descobrindo. Também por isso, foi um dos pioneiros da indústria cinematográfica americana, que ele próprio ajudou a estabelecer, por exemplo durante o seu trabalho com D. W. Griffith. O seu trabalho como realizador, cruzando diversas décadas, faz um percurso por todo o classicismo americano, começa aliás antes dele, num período pré-clássico, e termina no momento em que esse edifício clássico começava a desmoronar-se. Polivalente e eclético, Dwan tocou todos os géneros – do musical ao filme de guerra, do melodrama ao noir, do western à comédia, com o mesmo pragmatismo, a mesma inteligência, a mesma modéstia de artesão, as mesmas elegância e imaginação na invenção de ideias visuais e narrativas. Esteve esquecido durante demasiados anos, arrumado como “relíquia” de outros tempos, curiosidade “arqueológica”, e retorna agora ao seu devido lugar na história do cinema.

A segunda prenda é o retorno do ciclo “O Que Quero Ver”, interrompido pela pandemia, que regressa para fechar o ano de 2021 em versão “expandida”, com onze títulos solicitados diretamente pelos espectadores da Cinemateca que resultam num programa eclético.

Finalmente, a última prenda do mês e do ano: o ciclo “Simone Signoret e Yves Montand: Caminhos Paralelos” sobre dois grandes atores do cinema francês. Simone Signoret (1921-1985) e Yves Montand (1921-1991) formaram, a partir dos anos 50, um dos grandes casais míticos do cinema. Os dois conheceram-se em 1949, quando as suas carreiras já tinham sido lançadas e permaneceram juntos até à morte de Signoret. Ambos foram companheiros de viagem do Partido Comunista e no domínio da militância política Montand e Signoret foram, por assim dizer, o equivalente no mundo do cinema de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir e as suas tomadas de posição eram ouvidas com atenção. Mas se as vidas de Signoret e Montand nunca se apartaram, apesar de diversos percalços, as suas carreiras (e, além de ator, ele era um não menos célebre cantor) foram paralelas, duas linhas que seguem a mesma direção, mas nunca se tocam: os dois quase nunca atuaram juntos no cinema e quando o fizeram a sua presença simultânea no ecrã foi muito breve. Por isso, em vez de um ciclo Yves Montand/Simone Signoret, teremos dois ciclos simultâneos e paralelos, um que acompanha o percurso de Simone Signoret, outro que segue o de Yves Montand.

Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 29 de novembro a 4 de dezembro:

Il Grido (O Grito, 1957) – Terça-feira, 30 de novembro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. A paisagem como reveladora dos sentimentos, no cinema de Antonioni. O que se adivinhava já em Cronaca di Un Amore (a sua primeira longa-metragem, datada de 1950) tem aqui o seu momento de transição para a famosa trilogia da alienação aberta com L’Avventura (1960). Em Il Grido, a paisagem reflete o estado de alma de Aldo, numa travessia de separação e experiência de falta de sentido para a vida. Ou segundo Antonioni: é um filme que pretende “olhar para dentro do homem a quem roubaram a bicicleta e ver quais são os seus pensamentos, como se adequam, quanto ficou dentro dele de todas as experiências passadas, da guerra, do pós-guerra […], que coisas podem suceder a um homem que é abandonado pela sua mulher”.

Dedée d’Anvers (Vidas Tenebrosas, 1947) – Quinta-feira, 2 de dezembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Primeiro dos dois excelentes filmes de Yves Allégret em que Simone Signoret tem o papel principal, este é o filme que deu à atriz a sua verdadeira primeira oportunidade de se destacar. Trata-se de um notável filme negro em que Signoret encarna uma prostituta que trabalha no porto de Antuérpia, sob o jugo de um proxeneta ao mesmo tempo violento e cobarde. Ela apaixona-se por um homem, que vê de modo idealizado e com o qual decide fugir. Excelente trabalho de realização, com destaque para a fotografia e os cenários de estúdio, que exploram o ambiente noturno e brumoso da cidade. A narrativa é conduzida com mão de mestre e, depois do desenlace, há um epílogo surpreendente. Na segunda-feira, 6 de dezembro, o filme volta a ser exibido às 19h30, na Sala Luís de Pina.

The Most Dangerous Man Alive (O Mais Perigoso Homem Vivo, 1961) – Quinta-feira, 2 de dezembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Este foi o derradeiro filme de Allan Dwan, feito não muito longe de San Diego, no sul da Califórnia, no outro lado da fronteira mexicana. Uma história de ficção científica que o produtor Benedict Bogeaus, de quem Dwan foi um prolífero colaborador nos últimos anos da sua obra, planeara como episódio-piloto para uma série televisiva, com um budget curtíssimo. O filme reflete maravilhosamente a aridez e a escassez do orçamento, e é uma despedida “em bruto” de Dwan, de um pragmatismo genial que muito se pode ligar – é a mesma “lição” – aos filmes dos seus primórdios.

Novyy Vavilon (A Nova Babilónia, 1929) – Quinta-feira, 2 de dezembro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro, com acompanhamento ao piano por Daniel Schvetz. Uma das obras-primas do cinema soviético, marcada pela estética da FEKS (“Fábrica do Actor Excêntrico”, o grupo de cineastas de Leninegrado a que pertencia Kozintsev) e pelo cinema de Eisenstein. Uma delirante evocação da insurreição da Comuna de Paris em 1871, onde uma operária e um soldado, de origem camponesa, se fundem nas massas que se levantaram na primeira revolução proletária (que foi massacrada impiedosamente). A música original, de Dmitri Chostakovich, não incluída nesta cópia, era tão moderna para os ouvidos da época que alguns espectadores vinham queixar-se que o maestro estava bêbedo…

Crin-Blanc (Crina Branca, 1953) & Le Ballon Rouge (O Balão Vermelho, 1956) – Sábado, 4 de dezembro, 15h00, Salão Foz. Estas duas curtas-metragens de Albert Lamorisse dos anos cinquenta estão associadas à infância: a primeira, que venceu a Palma de Ouro de curta-metragem em Cannes 1953, foi filmada nas margens do rio Ródano, na região francesa da Camarga, como a fábula de um rapaz que doma um cavalo branco. A segunda é uma história de bairro (o parisiense Ménilmontant) e segue a personagem de um miúdo pelas ruas de Paris, onde um balão vermelho se torna motivo de inveja. São ambas aventuras poéticas da infância com afetos improváveis, falando-nos das amizades surpreendentes das crianças, ora com animais, ora com objetos.

Tout Va Bien (Tudo Vai Bem, 1972) – Sábado, 4 de dezembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Jane Fonda e Yves Montand são as duas estrelas que aqui permitem a Jean-Luc Godard elaborar uma outra forma do seu discurso político, num efémero regresso ao cinema comercial após alguns anos de filmes militantes (Godard só regressaria de vez aos circuitos comerciais em meados dos anos oitenta). O discurso, porém, é o mesmo. Tout Va Bien é quase a exposição didática de uma greve numa grande empresa, com o sequestro do patrão, e os seus reflexos na jornalista e no cineasta que a testemunham. Pelo uso de vedetas e pela relativa “normalidade” da sua produção, ficou como a mais conhecida, mas também a mais atípica, das colaborações na realização entre Godard e Jean-Pierre Gorin. Uma segunda sessão terá lugar na quinta-feira, 9 de dezembro, às 19h30 na Sala Luís de Pina.

Nota: Na terça-feira, 30 de novembro, voltará a ser exibido La Classe Operaia Va in Paradiso (1971), filme já sugerido pelo C7nema na semana passada.

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