Sessões na Cinemateca – Escolhas de 4 a 9 de outubro

(Fotos: Divulgação)

Inicia-se esta semana na Cinemateca um ciclo preparado em colaboração com o Slovenian Film Centre e o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Eslovénia, que nos levará n’ “Uma Viagem pelo Cinema da Eslovénia”. A existência deste país como uma nação independente é um dado histórico relativamente recente, e passam-se em 2021 trinta anos sobre esse acontecimento que foi a desintegração da Jugoslávia. Mas a língua e a cultura eslovenas existiram no cinema jugoslavo desde os primórdios. O enfoque deste ciclo é então sobretudo histórico, privilegiando uma resenha de alguns momentos importantes entre os anos 1940 e os anos 1980 do cinema feito na Eslovénia, mas inclui também um apontamento contemporâneo, com três filmes de produção muito recente.

Esta semana começa também uma retrospetiva sobre Jacqueline Audry, organizada com a 22ª Festa do Cinema Francês e o Institut Français. Audry (1908-1977) foi uma das mais produtivas realizadoras do século passado, assinando uma obra que olha de forma atenta a perspetiva feminina no cinema, através sobretudo de personagens marcadas pela emancipação. Sendo a única mulher com uma produção regular de cinema na França da época – uma curta documental e dezasseis longas de ficção realizadas entre 1943 e 1969 –, Audry atravessou a cronologia do cinema francês desde a Ocupação até à Nouvelle Vague. Desalinhada quer da produção francesa do pós-guerra, quer da posterior vanguarda, desapareceu do radar nas décadas seguintes. A atitude livre, a perspetiva transgressora, a sexualidade e o olhar feminista destacam-se na filmografia de Audry, bem como o perfil irreverente das suas protagonistas – quase invariavelmente mulheres –, um sentido de mise-en-scène, a curiosidade da alegria e do humor. Inclinada para a subversão dos códigos, a sua obra abarca uma variedade de géneros, vários dos quais estarão agora em exibição.

Paralelamente, continua a decorrer o ciclo dedicado a “Dirk Bogarde – O Ator das Sombras”, cujo centenário do nascimento se marca este ano. Um dos atores mais marcantes do cinema britânico do período pós-II Guerra é aqui recordado em dez paragens por momentos que se contam entre os mais importantes da sua carreira. Esta semana há também mais uma projeção especial sob o lema “Salvar a Cinemateca Brasileira!” – um programa quinzenal em que se projetam obras em homenagem ao Cinema Brasileiro, à instituição Cinemateca Brasileira e à sua história, e à atual equipa que a representa.

Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 4 a 9 de outubro:

Ne Joci Peter (Não Chores, Peter, 1964) – Segunda-feira, 4 de outubro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos vários filmes de France Stiglic que tem a II Guerra como pano de fundo. A história de dois soldados que têm de conduzir um grupo de crianças pelas florestas eslovenas até a uma zona onde estejam em segurança, o filme funda-se na evolução dos relacionamentos entre os dois homens, e entre os dois homens e as crianças. Foi bastante aclamado na sua época, e visto então como um dos maiores feitos da cinematografia eslovena.

Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar (2019) – Quarta-feira, 6 de outubro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. A cidade de Toritama, no Brasil, é considerada a capital dos jeans. Grande centro da produção têxtil nacional, lá são produzidas anualmente em fábricas caseiras 20 milhões de calças de ganga. Orgulhosos de serem os próprios chefes, os proprietários destas fábricas trabalham ininterruptamente, exceto no Carnaval, momento em que chega a semana de folga, em que gastam o que ganharam e exercem o seu direito ao descanso em praias paradisíacas. Filmando este microcosmo, Marcelo Gomes revela inteligentemente e com muita sensibilidade as contradições do capitalismo moderno. O filme foi exibido no Festival de Berlim na secção Panorama.

Ples V Dezju (Dança à Chuva, 1961) – Quinta-feira, 7 de outubro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos primeiros trabalhos de Bostjan Hladnik (1929-2006), um importante autor da cinematografia eslovena. Ples V Dezju é um conto urbano e contemporâneo, retrato da angústia tingida de tédio das classes intelectuais e artísticas. História de um casal composto por uma atriz de cinema e pelo seu marido boémio e alcoólico, descreve com alguma aspereza os meios e as aspirações do ambiente em que se movem as personagens, mas desencanta algum lirismo – a “dança à chuva” – nas possibilidades oníricas, vividas como escape.

Victim (1961) – Sexta-feira, 8 de outubro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um filme que marcou época na carreira de Dirk Bogarde, no papel de um advogado bem-sucedido que tenta desbaratar uma quadrilha que faz chantagem a homossexuais, numa época que a homossexualidade era um crime punido por lei na Grã-Bretanha. Mas ele próprio, embora casado, é homossexual e por isso é uma vítima potencial da chantagem. O realizador, Basil Dearden, que já tinha uma longa carreira atrás de si, abordou este tema sob o ângulo do thriller, filmando todos os exteriores em cenários naturais em Londres.

Olivia (1950) – Sexta-feira, 8 de outubro, 21h00, Sala M. Félix Ribeiro. Filme-chave na obra de Jacqueline Audry, escrito com a irmã Colette Audry e dialogado por Pierre Laroche a partir de um romance de Dorothy Bussy. É um retrato do despertar da sexualidade juvenil de extrema sensibilidade, que aborda o desejo lésbico sem juízos nem preconceitos. Mais referida pelo desassombro narrativo, a 5ª ficção da realizadora é reveladora da peculiaridade da sua visão, mise-en-scène e direção de atores (no caso, exclusivamente atrizes). A história é a de Olivia (Marie-Claire Olivia): uma adolescente inglesa que ingressa numa escola francesa de raparigas no século XIX e se apaixona por uma de duas mestras (as personagens de Edwige Feuillère e Simone Simon), amantes ou ex-amantes que entre si disputam a atenção das alunas. Especialmente polémico na época, em que fez escândalo e despertou violência crítica, tornou-se a mais conhecida obra da realizadora.

Kikujirô No Natsu (O Verão de Kikujiro, 1999) – Sábado, 9 de outubro, 15h00, Salão Foz. O jovem Masao está de férias, todos os seus amigos saíram da cidade rumo à praia. É verão e ele está sozinho com a avó em Tóquio. Não tem pai e só conhece a mãe por fotografias. Decide ir procurá-la. No início da sua viagem encontra um casal vizinho; a mulher ordena ao marido, Kikujiro, que ajude e acompanhe Masao na sua jornada. Kikujiro é um homem rude e fanfarrão e com pouca paciência para crianças, longe de ser a companhia ideal para o sensível rapaz. Durante o percurso acidentado, recheado de aventuras e personagens esquisitas, este par insólito vai descobrir que têm mais em comum do que aparentemente julgavam.

Nota: A exibição de “Olivia” (1950) é antecedida de uma conferência de Brigitte Rollet sobre a obra de Jacqueline Audry (cerca de 30 minutos, em francês, sem tradução). Uma segunda sessão terá lugar a 20 de outubro, quarta-feira, pelas 15h30 na Sala M. Félix Ribeiro.

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