Jacqueline Audry (1908-1977) foi uma das mais produtivas realizadoras do século passado, assinando uma obra que olha, de forma atenta, a perspetiva feminina no cinema através, sobretudo, de personagens marcadas pela emancipação. Sendo a única mulher com uma produção regular de cinema na França da época – uma curta documental e dezasseis longas de ficção realizadas entre 1943 e 1969 -, Audry atravessou a cronologia do cinema francês desde a Ocupação até à Nouvelle Vague. Desalinhada quer da produção francesa do pós-guerra, quer da posterior vaga trazida pelos cinéfilos dos Cahiers du Cinéma, desapareceu do radar nas décadas seguintes, sem que se notasse a marca da irreverência sob o filtro cuidado das produções.
Agora, entre os dias 8 e 20 de outubro, a 22ª Festa do Cinema Francês e a Cinemateca Portuguesa apresentam uma retrospetiva sobre este nome que importa (re)descobrir na história do cinema. Serão 7 os títulos disponíveis para projeção em Portugal, país onde apenas dois dos seus filmes estrearam comercialmente: “Adão Teve Culpa” (1957) e “O Segredo do Cavaleiro” (1959). Presente em Lisboa, para fazer a apresentação de todo o programa, estará Brigitte Rollet, investigadora e professora em estudos de cinema e média e autora de diversas obras sobre cinema francês.
A atitude livre, a perspetiva transgressora, a sexualidade e o olhar feminista (historicamente situado no rasto da vanguarda de Germaine Dulac) estão presentes na filmografia de Jacqueline Audry, que sublinha o perfil irreverente das suas protagonistas – quase invariavelmente mulheres –, mas também um sentido de mise-en-scène, a curiosidade da alegria e do humor, um trabalho inspirado com os intérpretes. Inclinada para a subversão dos códigos, a sua obra abarca uma variedade de géneros: o filme de época (com predileção pela Belle Époque), a comédia dramática, “de capa e espada”, e o road movie. Sobre o percurso firmado num mundo eminentemente masculino, Audry sintetizou: “Toda a minha vida profissional foi uma espécie de torneio, tive de guerrear muito.” Sobre os filmes, notou retrospetivamente como “tiveram por objeto as relações passionais entre os seres”.
A Festa do Cinema Francês é organizada pela produtora Jangada, apoiada pela Embaixada de França e o Institut français du Portugal, em parceria com a rede das Alliances Françaises em Portugal. A 22ª edição do festival decorrerá nas seguintes datas e cidades portuguesas: Lisboa (7 a 20 de outubro), Almada (12 a 16 de outubro), Oeiras (9, 10, 16, 17, 18 e 19 de outubro), Coimbra (12 a 16 de outubro), Porto (19 a 27 de Outubro), Braga (21 a 24 de outubro), Évora (28 a 31 de outubro), Viseu (28 a 31 de outubro) e Faro (21 a 24 de outubro).
Eis os títulos que farão parte da retrospetiva a Jacqueline Audry:
– Huis-Clos, França, 1954, 95′
– L’école des cocottes, França, 1957, 100′
– La garçonne, França, 1957, 97′
– Les Chevaux du vercors, França, 1943 , 18′
– Les Malheurs de Sophie, França, 1945, 95′
– Minne, L’ingénue libertine, França, 1950, 90′
– Olivia, França, 1950, 95′

