Esta semana de sessões na Cinemateca abre com uma projeção especial sob o lema “Salvar a Cinemateca Brasileira!”. Depois de mais um catastrófico incêndio a deflagrar naquela instituição, a que se junta a interrupção dos apoios do Governo Federal e uma forçada paralisação de atividade, que, desde o dia 7 de agosto de 2020, inclui a interdição formal de entrada de todos os técnicos nas instalações, a sua homóloga portuguesa propõe um programa quinzenal em que irá projetar obras em homenagem ao Cinema Brasileiro, à instituição Cinemateca Brasileira e à sua história, e à atual equipa que a representa. A intenção é suspender esta série de sessões apenas e só quando os colegas da Cinemateca Brasileira puderem de novo regressar ao lugar e à missão que lhes compete.
Ao mesmo tempo, a Cinemateca promove um ciclo sobre “O Cinema de Vichy – A França Ocupada (1940-44)”. Durante o período da ocupação pela Alemanha nazi foram realizados em França um total de 220 filmes, e este ciclo, que mostra exclusivamente filmes realizados entre junho de 1940 e agosto de 1944, dá um apanhado do que foi o cinema dito “de Vichy”, que ainda hoje continua a ser relativamente pouco conhecido. Ao contrário do que se possa pensar, os ocupantes alemães não tiveram a menor intenção de tolher a produção de filmes franceses; aliás, a proibição total de filmes americanos fez com que durante estes anos os franceses tenham visto quase exclusivamente produções nacionais. Além disso, o cinema de Vichy em nada foi um cinema de propaganda ideológica, ficando essa reservada a curtas-metragens que eram projetadas antes das sessões principais. O que se mostra neste ciclo são, por isso, obras pouco conhecidas ou pouco vistas, protagonizadas por nomes menos famosos, devido à partida para Hollywood dos realizadores de maior prestígio (Jean Renoir, Julien Duvivier, René Clair) e das maiores vedetas (Jean Gabin, Michèle Morgan), mas que ainda assim merecem reconhecimento.
Finalmente, com o ciclo “Histórias de Objetos, Objetos nas Histórias” a Cinemateca procura refletir sobre o papel das coisas, dos objetos materiais, nas histórias do cinema. Muitas vezes os objetos são o centro e a força condutora quer de cenas quer de filmes inteiros, podendo um objeto conter todo o mundo de um filme. Pode tratar-se de um objeto de contenda mas também de desejo, pode fazer avançar a intriga ou detê-la num impasse de difícil resolução. Pode ser como uma chave e abrir portas ou pode ser como uma chave e trancar portas que não mais se querem abertas. Abrindo ou fechando, adensando enigmas ou desvendando-os de modo retumbante, os objetos que aqui são homenageados são quase sujeitos, pelo que não podem ser encarados como meros adereços, porque efetivamente atuam no tecido dramático do filme de maneira tão decisiva quanto às vezes violenta. De tal maneira assim é que, com o passar do tempo, poderá apenas restar na nossa memória a imagem de determinada coisa que, ampliada e/ou repetida na ação, se eleva como sujeito, mesmo como protagonista.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 6 a 11 de setembro:

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro / Antonio das Mortes (1969) – Segunda-feira, 6 de setembro, 18h30, Sala M. Félix Ribeiro. Esta primeira longa-metragem a cores de Glauber Rocha amplia o universo de Deus e o Diabo na Terra do Sol, filme em que já surgira o protagonista, Antonio das Mortes. Com uma mise-en-scène que tem alguns pontos em comum com o western spaghetti, o filme aproxima certos mitos populares brasileiros e a alegoria política. O protagonista, assassino por contrato a serviço dos poderosos, acaba por se voltar contra eles e massacra os representantes da ordem estabelecida. Uma sessão especial em honra do cinema brasileiro.

Les Enfants du Paradis (Os Rapazes da Geral, 1945) – Terça-feira, 7 de setembro, 21h30, Esplanada // Quinta-feira, 9 de setembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos grandes clássicos da história do cinema e uma superprodução (magníficos cenários, dois mil figurantes), embora tenha sido realizado no período mais duro da guerra. Situado nos meios do teatro da Paris do século XIX, Les Enfants du Paradis estabelece uma série de paralelos entre a vida e a arte e acaba por fazer triunfar o amor conjugal, condenando à derrota a “pecadora” Garance, o papel que marcou para sempre a imagem de Arletty. Jacques Prévert escreveu o argumento original e os diálogos, Alexandre Trauner, um dos maiores cenógrafos da sua geração (que teve de trabalhar clandestinamente, por ser judeu), realizou os magníficos cenários.

L’Assassinat du Père Noël (Mataram o Pai Natal, 1942) – Sexta-feira, 10 de setembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Adaptado de um romance policial de Pierre Véry, com a colaboração do próprio, este é um dos filmes mais conhecidos a terem sido feitos em França no período da Ocupação. Apesar do desenlace feliz, trata-se de uma história cheia de misteriosas intrigas e com algumas personagens perversas, movidas pela inveja, num reflexo do clima de suspeição e insegurança que reinava no país. A ação é situada numa aldeia onde é roubado um precioso anel que faz parte das relíquias da igreja local, na qual é encontrado o cadáver de um desconhecido, vestido de Pai Natal. O realizador, Christian-Jaque, foi um dos mais fecundos e competentes da sua geração. Dia 17 de setembro, sexta-feira, o filme voltará a ser exibido, às 15h30 na Sala M. Félix Ribeiro.

Citizen Kane (O Mundo a Seus Pés, 1941) – Sexta-feira, 10 de setembro, 21h30, Esplanada. Este primeiro filme de Orson Welles, realizado quando o cineasta tinha 26 anos, é reconhecido como um “grande salto” na história da evolução da linguagem cinematográfica. A profundidade de campo, os enquadramentos em ligeiro contrapicado ao nível do chão, o plano sequência natural ou artificial (recorrendo a efeitos especiais), vieram abrir novos caminhos para a realização. Tudo isto ao serviço de um argumento de Herman J. Mankiewicz, que é também um dos mais bem escritos de sempre, sobre a vida de um potentado da imprensa, Charles Foster Kane, biografia que é passada a pente fino para que se descubra o significado da sua palavra final, dita no leito de morte: “Rosebud”. Nomearia Kane uma pessoa, um lugar ou “somente” um objeto?

Kes (Os Dois Indomáveis, 1969) – Sábado, 11 de setembro, 15h00, Salão Foz. Maltratado na escola e em casa, Billy Casper, um jovem de 15 anos da região mineira de Yorkshire, apenas encontra tranquilidade a treinar um falcão, que batiza com o nome de Kes. Encorajado pelo professor de Inglês, Billy encontra por fim uma vocação. Este é um dos primeiros filmes realizados por Ken Loach, nome incontornável do cinema britânico de pendor realista, e considerado uma das suas obras-primas. Uma obra menos “divertida” que aquelas que costumam passar na Cinemateca Júnior, mas certamente a não perder.
Nota: Na quarta-feira, 8 de setembro, voltará a ser exibido “Sambizanga”, pelas 19h00 na Sala M. Félix Ribeiro, e na sexta-feira, 10 de setembro, também “Le Corbeau” terá uma segunda projeção, às 15h30 na Sala M. Félix Ribeiro, ambos filmes sugeridos pelo C7nema na semana passada.

