Como anunciado na semana passada, o mês de agosto vê a Cinemateca manter as portas abertas de forma a compensar os cinéfilos que sentiram falta da sala escura durante os primeiros meses do ano. É em torno do ciclo “Por uma Canção” que todo o programa deste mês se estrutura, além das habituais sessões na Cinemateca Júnior e umas pontuais colaborações com festivais de verão. No fim de agosto a Cinemateca exibirá ainda todos os filmes das secções “Director’s Cut” e “Director’s Cut em Contexto” da 18ª edição do IndieLisboa.
Por agora, o programa não é propriamente musical, nem cantado, mas centrado num conjunto de filmes que são habitados por momentos inesquecíveis em que uma canção reverbera por toda a obra. São momentos fímicos em que a música soa mais alto, e em que associação de uma canção a um filme se fixa, estabelecendo-se uma íntima correspondência entre os dois.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 2 a 7 de agosto:

One from the Heart (Do Fundo do Coração, 1982) – Segunda-feira, 2 de agosto, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Francis Ford Coppola propôs-se reinventar o musical em registo de feérie romântica, numa Las Vegas de estúdio magnificamente filmada e com grandes inovações técnicas que fazem de One from the Heart uma das obras mais decisivas dos anos 1980. É uma obra indissociável da melancolia da banda musical de Tom Waits, e do tilintar da moeda caída ao chão que se ouve numa das canções, This One’s from the Heart. O filme voltará a ser exibido dia 12 de agosto, quinta-feira, pelas 21h30 na Esplanada.

Palombella Rossa (1989) – Segunda-feira, 2 de agosto, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro // Sábado, 7 de agosto, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Uma sátira ao panorama político italiano da época, sendo, em particular, uma metáfora da situação então vivida pelo Partido Comunista Italiano, a que Nanni Moretti dedica o seu filme seguinte, documental, La Cosa (1990). A ação concentra-se dentro de uma piscina onde decorre uma partida de polo aquático, refletindo os confrontos em causa. Entre dois gags fabulosos (o desastre automóvel e a grande penalidade), um homem, interpretado por Moretti, procura reconhecer-se e encontrar a função que lhe cabe no mundo. I’m on Fire de Bruce Springsteen é a banda sonora de uma inesquecível sequência aquática em suspenso.

Like Someone in Love (2012) – Terça-feira, 3 de agosto, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. “Uma jovem mulher e um velho encontram-se em Tóquio. Ela não sabe nada sobre ele, ele pensa que a conhece. Ele recebe-a em sua casa e ela oferece-lhe o seu corpo. Mas a teia que se tece nas vinte e quatro horas seguintes supera as circunstâncias do seu encontro.” Assim reza a sinopse de Like Someone in Love, o último filme de Abbas Kiarostami, rodado no Japão, com atores japoneses, em que um velho professor cantarola Che Sera, Sera (Whatever Will Be, Will Be) e cujo título é o da canção composta em 1944 por Jimmy van Heusen e Johnny Burke, ouvida no filme na interpretação de Ella Fitzgerald: Like Someone in Love. Uma grande obra do mestre iraniano.

Cavalo Dinheiro (2014) – Quarta-feira, 4 de agosto, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Enquanto decorria a revolução de abril de 1974, Ventura, o protagonista cabo-verdiano de Juventude em Marcha (2006), deambulava pelas ruas de Lisboa. O episódio é central neste filme, que volta a organizar-se em torno de Ventura e da sua história; mas é na coalescência de tempos diferentes, e através de um passado interrompido pelo curso do presente, que se constrói Cavalo Dinheiro, trabalho fragmentado que tira partido dos mecanismos pouco lineares da memória para revisitar os fantasmas de Ventura e dos seus companheiros, que são também os espectros de um país. A apurada mise-en-scène de Pedro Costa investe no trabalho de composição fotográfica para construir uma atmosfera densa. Pelos Tubarões, Alto Cutelo é a canção de que se ouve no filme.

Ikiru (Viver, 1952) – Quarta-feira, 4 de agosto, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Dos grandes filmes de Akira Kurosawa, Ikiru é uma reflexão sobre o sentido da vida por alguém a quem resta pouco tempo. O Sr. Watanabe (Takashi Shimura), chefe de secção no município de Tóquio, foi um funcionário exemplar ao longo de 20 anos, mas, diagnosticado com uma doença fatal que guarda para si, apercebe-se que passou ao lado da própria existência. O seu retrato estrutura-se em duas partes: ao percurso solitário do homem sucede o “inquérito” aos seus últimos meses por aqueles que acorrem ao velório, convocando uma série de flashbacks. Num momento capital do filme, o protagonista pede para ouvir uma “velha balada dos anos 1910” num bar que se silencia quando ele a trauteia ao som do piano: Gondola no uta (melodia de Shinpei Nakayama, letra de Isamu Yoshii), canção que se volta a ouvir no icónico plano final.

Stranger than Paradise (Para Além do Paraíso, 1984) – Quinta-feira, 5 de agosto, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Este filme começou por ser apresentado como uma curta-metragem, depois expandida e integrada numa longa que levou o mesmo título. É o segundo filme de Jim Jarmusch e firmou o seu nome como ponta de lança do universo dos “independentes americanos”. De Nova Iorque ao Ohio natal do cineasta e dali à Flórida, seguimos as deambulações de um grupo de suaves misfits. Minimalista, estilizado, lacónico e com toda a melancolia do universo jarmuschiano, é definitivamente um dos seus melhores filmes. O da canção de Screamin’ Jay Hawkins, I Put a Spell on You. No dia 19 de agosto, quinta-feira, haverá uma segunda projeção, pelas 21h30 na Esplanada.

