Numa colaboração já habitual com a MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa, este ano na sua 21ª edição e em datas mais tardias devido à pandemia, a Cinemateca apresenta esta semana um programa de cinema de animação que dá a ver uma mão cheia de longas-metragens de proveniências e técnicas de animação muito distintas.
Além disso, o fim do mês vê ainda o término dos dois ciclos que têm ocupado o programa de julho.
O primeiro, “Cinema Italiano, Lado B”, tem-nos levado numa viagem “alternativa” a Itália a partir de filmes de realizadores de “segunda linha” do cinema italiano, perfazendo um percurso heteróclito e nada canónico que mostra como era belo o cinema italiano na sua capacidade de ser simultaneamente popular e autoral. As produções datam dos anos 1950 aos anos 1970, uma das épocas de ouro desta cinematografia, mas nenhuma é assinada por um dos grandes mestres italianos, e nenhuma se insere nos três géneros característicos do cinema italiano deste período (o western spaghetti, o peplum e o giallo).
Já no ciclo “Alexander Kluge: Por um Cinema Impuro” tem-se apresentado o trabalho de um dos mais importantes nomes do cinema contemporâneo, que, desde os anos 1950, tem desenvolvido uma obra multidisciplinar que atravessa as áreas da literatura, da filosofia e do cinema, culminando numa intensa produção de programas para televisão. Trata-se de uma retrospetiva da vastíssima obra cinematográfica de Kluge, num programa muito abrangente que atravessa as várias fases da sua obra, incluindo os trabalhos mais recentes. Este seu “cinema impuro” é atravessado pela heterogeneidade, partindo de fotografias, pinturas, textos, outros filmes, entre muitos outros materiais, tendo por isso um caráter fragmentário assente na reciclagem constante de imagens e sons que o cineasta monta de modo único.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 26 a 31 de julho:

Pane, Amore e Fantasia (Pão, Amor e Fantasia, 1953) – Segunda-feira, 26 de julho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos grandes sucessos de bilheteira do cinema italiano no começo da década de cinquenta, e um filme que marca a transição do neorrealismo para a “comédia popular” que iria dominar nos anos seguintes e de que Luigi Comencini foi um dos especialistas. Esta é uma comédia divertidíssima, onde o chefe dos carabinieri (Vittorio De Sica) numa pequena aldeia italiana encontra uma bersagliera que lhe vai pôr a cabeça à roda, a capitosa Gina Lollobrigida no filme que fez dela a maior das grandes estrelas italianas (ex-aequo com a sua rival Sophia Loren).

Der Angriff der Gegenwart auf die übrige Zeit (O Ataque do Presente ao Tempo que Resta, 1985) – Segunda-feira, 26 de julho, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Uma jovem médica sente-se inútil. Uma família está sentada em frente ao computador como em torno de um fogão. Alguém está com pressa. Uma educadora (Jutta Hoffmann) deve entregar aos pais a criança de que cuidou durante um ano, mas o acolhimento que recebe é tal que acaba trazendo consigo o filho. Por fim, a história de um cineasta cego que perdeu a visão durante as filmagens e, não vendo nada, realizou o seu melhor filme. Uma poderosa metáfora que apela a tantas histórias de personagens cegas contadas pelo próprio Kluge ao longo de tantas obras.

Waking Life (Acordar para a Vida, 2001) – Quarta-feira, 28 de julho, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Filme de animação muito particular em que se procura o que está por detrás da realidade ou do sonho, sendo a personagem principal alguém que não sabe se está acordada ou a dormir. O trajeto do protagonista faz-se de múltiplos encontros, perambulações filosóficas na companhia de amigos, celebridades e especialistas, como Robert C. Solomon, filósofo da Universidade do Texas. O próprio filme, na sua pele, vive uma dúvida, fruto de um trabalho de animação realizado sobre imagem real. Uma frase, escrita num “quantos-queres”, prescreve: “o sonho é o destino”. Será a animação o destino das imagens reais?

When the Wind Blows (Quando o Vento Sopra, 1986) – Sexta-feira, 30 de julho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Baseado na novela gráfica homónima de Raymond Briggs, que também assina o argumento, este filme de animação de Jimmy T. Murakami combina as técnicas do desenho e stop-motion. Pode chamar-se-lhe uma “animação catástrofe”: desatento aos idos tempos da guerra, um casal britânico de certa idade constrói um abrigo preparando-se para um iminente ataque nuclear. A banda musical tem Roger Waters, Genesis, Squeeze… e Bowie, que escreveu e interpreta o tema do filme, “When the Wind Blows”.
Nota: Na quinta-feira, 29 de julho, voltará a ser exibido “Mafioso” (“O Emissário da Mafia”, 1962), pelas 15h30, na Sala M. Félix Ribeiro, e na sexta-feira, 30 de julho, também “Film d’Amore e d’Anarchia” (“Filme de Amor e de Anarquia”, 1973) terá uma segunda exibição, ambos sugeridos pelo C7nema na semana passada.

