Desde a semana passada que a Cinemateca está a apresentar o trabalho de um dos mais importantes nomes do cinema contemporâneo, que, desde os anos 1950, tem desenvolvido uma obra multidisciplinar que atravessa as áreas da literatura, da filosofia e do cinema, culminando numa intensa produção de programas para televisão: Alexander Kluge. Trata-se de uma retrospetiva da vastíssima obra cinematográfica de Kluge, organizada em colaboração com a Casa do Cinema Manoel de Oliveira (que acolherá em simultâneo uma instalação inédita constituída por vários excertos de filmes intitulada Política dos Sentimentos), e em diálogo com o cineasta e a sua equipa.
O ciclo “Alexander Kluge: Por um Cinema Impuro” é muito abrangente e atravessa as várias fases da sua obra, incluindo os trabalhos mais recentes, revelando como há temas e questões que dominam todo o seu “cinema impuro”, atravessado pela heterogeneidade e que parte de fotografias, pinturas, textos, outros filmes, entre muitos outros materiais. Um cinema fragmentário assente numa reciclagem constante de imagens e sons, que o cineasta monta de modo único. Entre os seus temas de eleição destaca-se a reflexão sobre o passado histórico da Alemanha, na sua articulação com a contemporaneidade, em especial a Segunda Guerra Mundial e o Terceiro Reich. Atento às grandes questões históricas e ao papel dos “sentimentos”, Kluge dedica também grande importância às personagens femininas e a um “cinema dialético” que oscila em permanência entre realidade e ficção.
Em paralelo, a programação do ciclo “Cinema Italiano, Lado B” continua a levar-nos numa viagem “alternativa” a Itália através do seu cinema. Este ciclo conta com 23 filmes de realizadores de “segunda linha” do cinema italiano, perfazendo um percurso heteróclito e nada canónico que mostra como era belo o cinema italiano na sua capacidade de ser simultaneamente popular e autoral. As produções são todas elas do início dos anos 1950 ao final dos anos 1970, ou seja, uma das épocas de ouro desta cinematografia; nenhuma é assinada por um dos grandes mestres italianos, e nenhuma se insere nos três géneros característicos do cinema italiano deste período (o western spaghetti, o peplum e o giallo).
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 19 a 24 de julho:

Gelegenheitsarbeit einer Sklavin (Trabalhos Ocasionais de uma Escrava, 1973) – Segunda-feira, 19 de julho, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Roswitha Bronski (interpretada pela irmã de Kluge, Alexandra) é mais uma das grandes personagens femininas do cineasta. É uma mulher esgotada, dividida entre os trabalhos domésticos, o cuidado do marido e dos filhos, e os abortos clandestinos que realiza para compor o orçamento familiar. Encontrará novas energias nos movimentos revolucionários a que adere, mas o primeiro passo para a mudança dá-se dentro da “unidade familiar”. Como diz uma frase no interior do próprio filme “Roswitha sente uma força tremenda dentro de si mesma, e ela sabe pelos filmes que essa força realmente existe.” Mal compreendido por muitos à data da sua estreia, este é um filme profundamente atual.

Film d’Amore e d’Anarchia (Filme de Amor e de Anarquia, 1973) – Terça-feira, 20 de julho, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Quando um amigo é assassinado pelos fascistas, um proprietário rural melancólico (interpretado por Giancarlos Gianini, presença habitual nos filmes de Lina Wertmüller) passa a residir num bordel romano. Ele e uma prostituta anarquista planeiam assassinar Mussolini. Um dos maiores sucessos da prolífica carreira da cineasta Lina Wertmüller, uma das raras mulheres realizadoras cuja longevidade e importância no cinema de ficção italiano se podem medir contra as dos seus pares masculinos. Uma segunda sessão do filme terá lugar a 30 de julho, sexta-feira, pelas 15h30, na Sala M. Félix Ribeiro.

Il Bell’Antonio (O Belo António, 1960) – Terça-feira, 20 de julho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. O argumento é de Pier Paolo Pasolini, com base num romance de Vitaliano Brancati. Trata-se de um retrato satírico dos costumes da Sicília, com especial ênfase na sexualidade. A história é a do casamento do “belo António” (Marcello Mastroianni) com Barbara (Claudia Cardinale), casamento que ele nunca consegue consumar, naquele que é, porventura, o melhor filme de Bolognini. Dia 22 de julho, quinta-feira, o filme será projetado de novo, às 15h30 na Sala M. Félix Ribeiro.

Mafioso (O Emissário da Mafia, 1962) – Quarta-feira, 21 de julho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Um brilhante e surpreendente filme de Alberto Lattuada, que lança uma luz sobre a constituição das famílias da Mafia e as suas ligações transatlânticas, das aldeias sicilianas até à comoção das ruas nova-iorquinas. Toda a câmara à mão é elástica em volta das personagens e essa flexibilidade faz com que possamos sentir as gotas do seu suor num verão quente em que um homem deve provar lealdade à la famiglia. Talvez um dos mais perfeitos exemplos do caldeirão neorrealista de comédia, crítica social e tragédia típica do cinema italiano do período, aprimorado pela excelente interpretação de Alberto Sordi, capaz de vestir todas as peles que a narrativa exige. O filme voltará a ser exibido na quinta-feira, 29 de julho, às 15h30 na Sala M. Félix Ribeiro.

In Gefahr und größter Not bringt der Mittelweg den Tod (No Perigo e Maior Angústia, o Caminho do Meio é o da Morte, 1974) – Quinta-feira, 22 de julho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. A 15 de fevereiro de 1973 em Frankfurt é a época do carnaval, mas também o momento em que as casas ocupadas na Schumannstraße são evacuadas à força. Neste filme, duas mulheres vagueiam pela cidade. A primeira tem como especialidade roubar os homens com quem dorme. A segunda, é uma “escuteira” da RDA interessada na realidade social. Como dirá mais tarde Kluge, o título do filme correspondia à sua convicção política e baseia-se num graffiti pintado nas paredes de um prédio então ocupado. O tango que, no final, acompanha a fuga do ladrão, é obra de um grupo espanhol, forçado ao exílio em França após a guerra civil.

Deutschland im Herbst (A Alemanha no Outono, 1978) – Sexta-feira, 23 de julho, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. No outono de 1977 a República Federal da Alemanha viveu a mais grave crise política desde a sua fundação, em 1951. O confronto entre os grupos de extrema-esquerda e o Estado chegou ao apogeu: a Fação Exército Vermelho raptou Hans-Martin Schleyer e desviou dois aviões para obter a libertação dos seus membros. A resposta do Estado foi uma brutal repressão, com o apoio da opinião pública e o duvidoso suicídio dos líderes da Fação Exército Vermelho, numa prisão de segurança máxima. Um grupo de cineastas, entre os quais Alexander Kluge, Rainer W. Fassbinder e Edgar Reitz, decidiu fazer um filme em episódios sobre esta crise e os seus significados mais profundos.

