Nesta semana de julho arranca na Cinemateca a apresentação do trabalho de um dos mais importantes nomes do cinema contemporâneo, que, desde os anos 1950, tem desenvolvido uma obra multidisciplinar que atravessa as áreas da literatura, da filosofia e do cinema, culminando numa intensa produção de programas para televisão: Alexander Kluge. Trata-se de uma retrospetiva da vastíssima obra cinematográfica de Kluge, organizada em colaboração com a Casa do Cinema Manoel de Oliveira (que acolherá em simultâneo uma instalação inédita constituída por vários excertos de filmes intitulada Política dos Sentimentos), e em diálogo com o cineasta e a sua equipa. O ciclo “Alexander Kluge: Por um Cinema Impuro” é muito abrangente e atravessa as várias fases da sua obra, incluindo os trabalhos mais recentes, revelando como há temas e questões que dominam todo o seu “cinema impuro”, atravessado pela heterogeneidade e que parte de fotografias, pinturas, textos, outros filmes, entre muitos outros materiais. Um cinema fragmentário assente numa reciclagem constante de imagens e sons, que o cineasta monta de modo único. Entre os seus temas de eleição destaca-se a reflexão sobre o passado histórico da Alemanha, na sua articulação com a contemporaneidade, em especial a Segunda Guerra Mundial e o Terceiro Reich. Atento às grandes questões históricas e ao papel dos “sentimentos”, Kluge dedica também grande importância às personagens femininas e a um “cinema dialético” que oscila em permanência entre realidade e ficção.
Em paralelo, a programação do ciclo “Cinema Italiano, Lado B” continua a levar-nos numa viagem “alternativa” a Itália e ao cinema italiano. Este ciclo conta com 23 filmes de realizadores de “segunda linha” do cinema italiano, perfazendo um percurso heteróclito e nada canónico que mostra como era belo o cinema italiano na sua capacidade de ser simultaneamente popular e autoral. As produções são todas elas do início dos anos 1950 ao final dos anos 1970, ou seja, uma das épocas de ouro desta cinematografia; nenhuma é assinada por um dos grandes mestres italianos, e nenhuma se insere nos três géneros característicos do cinema italiano deste período (o western spaghetti, o peplum e o giallo).
Já “Hot Blood – No Centenário de Jane Russell” junta uma série de filmes desta atriz que foi um dos maiores símbolos sexuais do cinema americano dos anos quarenta e cinquenta. Nesses primeiros anos da década de 1940, com a guerra a rugir na Europa e no Pacífico, ficou célebre como pin up, adorada pelos soldados americanos estacionados pelo mundo fora. Foi só depois da guerra que a sua carreira cinematográfica verdadeiramente arrancou, e logo o seu talento e a sua versatilidade explodiram e se tornaram evidentes. São essas as qualidades de Russell (nascida a 21 de junho de 1921, morreu em 2011) que têm estado em exibição, num ciclo que termina esta semana.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 12 a 17 de julho:

The Tall Men (Duelo de Ambições, 1955) – Segunda-feira, 12 de julho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Uma das obras-primas de Raoul Walsh, e o primeiro da série de westerns da maturidade que culmina com A Distant Trumpet (1964). Em The Tall Men, os heróis de Walsh (Clark Gable e Robert Ryan como irmãos) amadurecem, são mais serenos até nas ambições e a mulher está à mesma altura dos homens, sendo ela – Jane Russell – quem tem o poder de escolha.

Miseria e Nobilità (Totó Rico e Pobre, 1954) – Terça-feira, 13 de julho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro // Sexta-feira, 16 de julho, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Baseado na homónima opereta de Eugenio Scarpetta de 1888, Miseria e Nobilità conta a história das famílias humildes de Felice Pasquale e de um seu colega, contratados por um marquês que quer casar com a filha de um cozinheiro simples mas rico. Eles têm de se fazer passar por aristocratas em casa do sogro. O mais extraordinário é mesmo o desempenho dos atores, não só, obviamente, a prestação de Totò e de Sophia Loren, mas todos os secundários são também primorosos.

Die Macht der Gefühle (O Poder dos Sentimentos, 1983) – Sexta-feira, 16 de julho, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. “É importante distinguir entre sentimentos e sentimentalismo. Muito antigos, são mais poderosos do que pensamos. Em qualquer caso, eles são mais antigos do que qualquer forma de arte. Na verdade, eles formam o seu subtexto”. Será através de palavras como estas que Kluge revela a importância da noção de “sentimento” na sua obra, ideia que começa a emergir em força nesta longa-metragem. Um filme muito fragmentário concebido em doze sequências como “uma cadeia de variações sobre um tema único: como alcançar um fim feliz sem mentir”, compostas por um apurado trabalho sobre imagens originais e excertos de outros filmes, da ficção clássica alemã ao documentário. Um dos filmes charneira na obra de Kluge que revela a importância da ópera como “fábrica de sentimentos”.

Abschied von gestern (Despedida de Ontem, 1966) – Sábado, 17 de julho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Adaptando o conto Anita G., escrito por Alexander Kluge em 1962, este filme acompanha Anita G. (Alexandra Kluge, a irmã do cineasta), que se confronta com o passado e o peso da História ao experimentar as dificuldades de ajustamento à nova vida, após trocar a República Democrática Alemã pela Alemanha Ocidental. Leão de Prata em Veneza, Abschied von gestern é a primeira longa-metragem de Kluge, revelando-se como um marco do Novo Cinema Alemão. Com a sua estrutura fragmentária, a obra aponta formal e tematicamente para os motivos centrais da produção futura do cineasta.
Nota: Na segunda-feira, 12 de julho, voltará a ser exibido I Giorni Contati (Os Dias Contados, 1962) pelas 15h30, na Sala M. Félix Ribeiro, filme que foi sugerido pelo C7nema na semana passada.

