Durante este mês de julho o ciclo “Cinema Italiano, Lado B” propõe levar-nos numa viagem “alternativa” a Itália e ao cinema italiano, para a qual a Cinemateca estabeleceu três regras. A primeira é uma delimitação temporal: do início dos anos 1950 ao final dos anos 1970, ou seja, uma das épocas de ouro desta cinematografia. O segundo critério: não incluir obras dos grandes mestres (Rossellini, Visconti, De Sica, Antonioni, Pasolini, Fellini, Bertolucci, etc.) que, por isso mesmo, têm tido ao longo dos anos maior visibilidade. O terceiro: não incluir obras de três géneros intrinsecamente característicos do cinema italiano deste período: o western spaghetti, o peplum e o giallo. Assim, o ciclo conta com 23 filmes de realizadores de “segunda linha” do cinema italiano, perfazendo um percurso heteróclito e nada canónico que mostra como era belo o cinema italiano na sua capacidade de ser simultaneamente popular e autoral.
Já “Hot Blood – No Centenário de Jane Russell” junta uma série de filmes desta atriz que foi um dos maiores símbolos sexuais do cinema americano dos anos quarenta e cinquenta. Nesses primeiros anos da década de 1940, com a guerra a rugir na Europa e no Pacífico, ficou célebre como pin up, adorada pelos soldados americanos estacionados pelo mundo fora. Foi só depois da guerra que a sua carreira cinematográfica verdadeiramente arrancou, e logo o seu talento e a sua versatilidade explodiram e se tornaram evidentes. São essas as qualidades de Russell (nascida a 21 de junho de 1921, morreu em 2011) que aqui estão em exibição.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 5 a 10 de julho:

Sedotta e Abbandonata (Seduzida e Abandonada, 1964) – Quarta-feira, 7 de julho, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Nesta comedia all’italiana regada a misoginia siciliana, o cineasta Pietro Germi tece uma mordaz crítica social em torno de todos os abusos sofridos pela jovem Agnese (Stefania Sandrelli, já a desenhar-se estrela do género). A rapariga é sedotta por Peppino, que é o mesmo que dizer violada, lançando a família numa tragédia sem nome. Momento definidor do filme é o diálogo que encerra a sua chave: “Tumore? — Onore”, responde o pai de Agnese (Saro Urzì), lançando luz sobre a doença espalhada pelo tecido social do patriarcado vigente: o tumor da honra, que tudo devora lentamente. Sublimes movimentos de câmara e planos sobre os monstros, que são os rostos masculinos quase desfigurados, olhos esbugalhados, expostos na sua brutalidade primal.

Macao (1951) – Quarta-feira, 7 de julho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Atribulada é a história da produção de Macao, que Howard Hughes propôs a Josef von Sternberg, cujo prestígio não era então certamente o mesmo dos anos trinta e que acabou afastado do projeto em plena rodagem. O argumentista Walter Newman e Nicholas Ray foram chamados a reescrever e retomar a obra. Muitos defendem-no como um filme de Sternberg, outros tantos como um filme de Ray, sendo a tese destes últimos provavelmente mais próxima da verdade, a julgar pelo testemunho de Jane Russell. Seja como for, é um belo filme, numa Macau imaginada em Hollywood, com marcantes presenças de Robert Mitchum, Jane Russell e Gloria Grahame.

Il Mattatore (O Castigador, 1960) –Quarta-feira, 7 de julho, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro // Sexta-feira, 9 de julho, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Esta é a primeira das 16 colaborações de um duo que formaria uma das mais famosas associações do cinema italiano: o realizador Dino Risi e o ator Vittorio Gassman. É obra! Gassman interpreta um ator com pouco sucesso no teatro que, às tantas, decide utilizar os seus dotes para vigarizar os mais incautos. O filme é uma sucessão de contos do vigário, em que cada um funciona praticamente como um sketch. Uma das comédias mais brilhantes do cinema italiano.

I Giorni Contati (Os Dias Contados, 1962) – Quinta-feira, 8 de julho, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Este filme de Elio Petri é visto como a primeira tentativa de à corrente neorrealista somar a influência da Nouvelle Vague francesa, quer na montagem, quer na própria mise-en-scène, onde não passou desapercebido o recurso à improvisação ou à utilização da câmara à mão. Mas o tema de I Giorni Contati é profunda e genuinamente neorrealista: o protagonista é um canalizador de meia idade que, ao presenciar a morte de um homem da sua idade, decide aproveitar ao máximo os dias que lhe restam de vida. O resultado não é o esperado. Na segunda-feira, 12 de julho, o filme voltará a ser exibido, pelas 15h30 na Sala M. Félix Ribeiro.

Risate Di Gioia (O Ladrão Apaixonado, 1960) – Sábado, 10 de julho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. O encontro entre Totò e Anna Magnani, numa divertidíssima comédia do realizador “oficial” de Totò que foi Mario Monicelli. Como em tantas comédias italianas, trata-se de um jogo de equívocos, de aldrabões vítimas de aldrabices. Magnani, uma figurante dos estúdios da Cinecittà, passa a noite de fim de ano com um velho amigo, que também é um pequeno ladrão. Mas ele tem outros planos e a mulher acaba presa no lugar dele.

Gentlemen Prefer Blondes (Os Homens Preferem as Loiras, 1953) –Sábado, 10 de julho, 20h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos sucessos editoriais dos anos 1920, Gentlemen Prefer Blondes teve, nessa época, uma primeira adaptação ao cinema, hoje esquecida. Howard Hawks utilizou a adaptação da Broadway da mesma obra como inspiração para uma das suas mais provocantes comédias à volta do sexo, que emparelha Jane Russell com a equipa olímpica americana, e Marilyn Monroe com um garoto milionário. Duas cantoras, Jane e Marilyn (a “devoradora de diamantes”), partem para Paris à caça de maridos ricos, em provocações que se tornam quase escabrosas. É o filme de canções como We Are Just Two Little Girls from Little Rock e Diamonds Are a Girl’s Best Friends.

