Para junho, a Cinemateca reservou uma nova instalação do programa “Revisitar os Grandes Géneros” – que já teve, em 2019, uma versão dedicada ao melodrama, e em 2020 outra em torno da comédia –, que desta vez se concentra no film noir. O ciclo “No Coração do Noir” é o primeiro dos dois passos do programa e propõe trinta títulos norte-americanos realizados entre 1940 e 1959, que constituem uma amostra substancial deste género (movimento? estilo?) cinematográfico. Talvez o elemento estilístico mais característico do noir seja a fotografia a preto-e-branco, altamente contrastada, dominada por sombras expressivas, focos de luz, ricochetes luminosos e silhuetas. Um imaginário visual que se constrói sobre narrativas frequentemente fragmentadas e em flashback, giradas em torno do crime, do susto, da morte, dos tormentos, das angústias, das claustrofobias, das motivações obscuras e paixões funestas. A ambiguidade moral do film noir é a expressão da infiltração da ansiedade da 2ª Guerra Mundial, da depressão do pós-guerra, da tensão da Guerra Fria e do que delas foi vertendo para as comunidades e os indivíduos como um mal-estar existencial.
O outro grande ciclo que marca o mês de junho é a “Carta Branca a Augusto M. Seabra”, crítico de cinema e música português que iniciou a sua carreira no domínio do cinema a escrever para o jornal “Expresso”, passando, desde a sua fundação, a trabalhar para o “Público”. A atividade de crítico levou-o à função de jurado em diversos festivais internacionais de cinema, sendo de destacar a sua presença no júri do festival de Cannes de 1993, a que se juntou a atividade de programador, tendo sido durante vários anos programador do DocLisboa. O conjunto de filmes que selecionou deixa de fora títulos óbvios numa qualquer lista representativa das escolhas do autor que, pela sua maior proximidade ao cânone mais consolidado do cinema mundial, têm sido regularmente exibidos na Cinemateca. Apresentam-se antes vinte e uma obras de grande amplitude geográfica e diversidade de registos, num desafio à descoberta.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 7 a 12 de junho:
– Now, Voyager (A Estranha Passageira, 1942) – Segunda-feira, 7 de junho, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Este é um dos mais míticos women’s pictures dos anos quarenta. Um esgotamento nervoso leva a protagonista, rica mas frustrada, a um cruzeiro transatlântico rumo ao Rio de Janeiro, durante o qual a solteirona descobrirá o amor. O filme contém uma das mais célebres réplicas dos anos quarenta, dita por Bette Davis a Paul Henreid: “Oh Jerry, don’t let´s ask for the moon. We’ve already got the stars!”.
– Shadow of a Doubt (Mentira!, 1943) – Terça-feira, 8 de junho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Um homem suspeito de ser o misterioso “assassino de viúvas” refugia-se numa pequena comunidade californiana onde tem família, mas uma sobrinha fascinada pela sua personalidade torna-se alvo de misteriosos “acidentes”… Sob o sol americano e os meandros dramáticos do crime, este é um dos mais negros filmes de Hitchcock, que o estimava sobremaneira e o construiu dirigindo-se ao fulcro dos alicerces da representação idealizada da sociedade americana. Uma obra-prima sobre a suspeita e a dúvida, cuja dimensão noir se encontra a descoberto na perversidade dos termos, na duplicidade omnipresente, nos segredos obscuros, no cinismo abissal e nas sombras projetadas através de cortinas.
– Kong Bu Fen Zi (The Terrorizers, 1986) – Quarta-feira, 9 de junho, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Nome maior da Nova Vaga taiwanesa, Edward Yang propõe-se, neste seu terceiro filme, “mapear” a cidade de Taipé através de um conjunto de histórias ligadas entre si de forma não óbvia. Yang disseca a vida em casal, produzindo um tratado sobre a incomunicabilidade à maneira de Michelangelo Antonioni (há inclusivamente um fotógrafo voyeur que parece saído de Blow-Up). Obra atmosférica que, nas palavras de Augusto M. Seabra, resulta num “retrato sistémico de uma geração, de uma época histórica e de uma sociedade precisa”.

– Leave Her to Heaven (Amar Foi a Minha Perdição, 1945) – Sexta-feira, 11 de junho, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Melodrama fabuloso e um dos poucos filmes noir com a paleta de um exuberante Technicolor, produzindo um mundo quase hiper-real graças à incandescência luminosa do seu ambiente. A narrativa em flashback, polvilhada de elementos psicanalíticos e moldada na tragédia grega, constrói-se à volta da complexa, fascinante, mórbida, extrema personagem de Gene Tierney. Uma “mulher fatal” dominada pela obsessão na figura paterna e por um doentio sentido de posse pelo homem com quem casa, que age no limite da manipulação, do ciúme, da vingança, sentimentos pelos quais está disposta a tudo, até a uma encenação suicidária para que continuem a cumprir-se depois de morta. Uma obra-prima.
– Xia Nu (A Touch of Zen, 1971) – Sexta-feira, 11 de junho, 19h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos grandes clássicos do cinema de artes marciais, realizado por King Hu. Um jovem artista, que vive isolado com a mãe, conhece uma jovem que está a ser perseguida por homens a soldo de um aristocrata que matara o pai dela. Muitas batalhas e combates se sucedem antes que tudo se resolva. A coreografia das batalhas é magistral, com todos os efeitos e figuras de estilo que tornaram o cinema de artes marciais um dos géneros mais populares em todo o mundo, e que aqui tem ainda a seu favor uma fotografia deslumbrante.
– Maria do Mar (1930) – Sábado, 12 de junho, 20h00, São Luiz Teatro Municipal. Estreado há quase exatamente 90 anos no São Luiz, Maria do Mar, de Leitão de Barros, é um dos expoentes do cinema mudo português. É um notável trabalho de integração da paisagem marítima e da vida dos pescadores da Nazaré numa ficção construída à volta do ódio entre duas famílias por causa da morte de um pescador, provocada acidentalmente por outro. Embora sejam os filhos que, em primeira instância, se tornam as maiores vítimas desse ódio, acabará por ser na sequência da união amorosa deles que virá a acontecer a reconciliação. Um belíssimo filme, com imagens surpreendentes e um trabalho de montagem claramente marcado pela influência da vanguarda soviética da época. A sessão marca os 125 anos da primeira sessão pública de cinema português, contemporânea do nascimento de Leitão de Barros, e será acompanhada pela música original de Bernardo Sassetti, interpretada ao vivo pela Orquestra Sinfonietta de Lisboa, Filipa Pais (voz), Francisco Sassetti (piano), com direção musical de Vasco Pearce de Azevedo.
Nota: Na quarta-feira, 9 de junho, voltará a ser exibido The Big Sleep (À Beira do Abismo, 1946), pelas 15h30, na Sala M. Félix Ribeiro, que fez parte das sugestões do C7nema na semana passada.

