Esta segunda-feira termina o programa da Cinemateca para maio, com duas sessões que representam do melhor que se mostrou ao longo do mês. De um lado, finaliza-se a celebração do centenário do nascimento de Deborah Kerr, uma das figuras mais reconhecidas do cinema americano dos anos 1950 e 1960, com o filme The Innocents (1961). De outro, encerra-se o grande ciclo “Os Mares da Europa”, inserido no quadro da programação cultural da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia do primeiro semestre de 2021, cujo foco é a presença do mar no cinema europeu. É com um clássico de Luchino Visconti, La Terra Trema (1948), que deslumbramos uma última vez como a temática marítima alimentou a produção cinematográfica europeia, servindo tanto como centro narrativo como de elemento plástico e poético.
Para junho, a Cinemateca reservou uma nova instalação do programa “Revisitar os Grandes Géneros” – que já teve, em 2019, uma versão dedicada ao melodrama, e em 2020 outra em torno da comédia –, que desta vez se concentra no film noir. O ciclo “No Coração do Noir” é o primeiro dos dois passos do programa e propõe trinta títulos norte-americanos realizados entre 1940 e 1959, que constituem uma amostra substancial deste género (movimento? estilo?) cinematográfico. Talvez o elemento estilístico mais característico do noir seja a fotografia a preto-e-branco, altamente contrastada, dominada por sombras expressivas, focos de luz, ricochetes luminosos e silhuetas. Um imaginário visual que se constrói sobre narrativas frequentemente fragmentadas e em flashback, giradas em torno do crime, do susto, da morte, dos tormentos, das angústias, das claustrofobias, das motivações obscuras e paixões funestas. A ambiguidade moral do film noir é a expressão da infiltração da ansiedade da 2ª Guerra Mundial, da depressão do pós-guerra, da tensão da Guerra Fria e do que delas foi vertendo para as comunidades e os indivíduos como um mal-estar existencial.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 31 de maio a 5 de junho:
– The Innocents (Os Inocentes, 1961) – Segunda-feira, 31 de maio, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Truman Capote colaborou nesta adaptação a preto-e-branco e em scope do célebre conto de Henry James, “The Turn of the Screw”. Uma jovem preceptora e duas crianças moram num velho palacete, sobre o qual paira uma espécie de maldição: o espírito das crianças é possuído pelo de dois seres maléficos que outrora aí viveram. O elemento fantástico é mais sugerido do que mostrado no filme, em que se destaca um grande desempenho de Deborah Kerr. É ela a preceptora que vê “os outros”, tornando-os visíveis aos olhos dos espectadores, nas cenas que entremeiam a “invisibilidade” da sua presença.
– La Terra Trema (1948) – Segunda-feira, 31 de maio, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Trata-se da primeira parte do que Luchino Visconti previa ser uma trilogia sobre o povo italiano no pós-guerra e a sua luta por uma vida melhor. Este filme é o “episódio do mar” e mostra, dentro de um estilo que se identifica com o neorrealismo mas que o transcende pela dimensão épica, a história da luta de um pescador contra o sistema de exploração na sua aldeia e, na visão marxista do filme, a sua inevitável derrota por se tratar de um ato individualista. Uma das obras máximas de Visconti, financiada pelo partido comunista italiano, e com o povo de Acci-Trezza, aldeia de pescadores na Sicília, como elenco.
– Laura (1944) – Terça-feira, 1 de junho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Nesta obra-prima de Otto Preminger, fundamental do cânone noir, Laura, a mulher “que vem de entre os mortos”, surge como imagem de um “sonho” que Dana Andrews tem ao contemplar o seu retrato. Além de sonhada, trata-se de uma mulher desejada por uma singular personagem de escritor e cronista de rádio, um sibarita que deu a Clifton Webb o seu papel mais famoso. A intriga criminal trabalha um volteante whodunnit em que o ponto de vista oscila entre as densas e ambíguas personagens de Andrews, Webb e Gene Tierney. “Laura” é o filme de uma obsessão (a que a imagem da protagonista desperta nos homens que a rodeiam) em que se projeta o imaginário do próprio cinema hollywoodesco.

– The Big Heat (Corrupção, 1953) – Terça-feira, 1 de junho, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro // Sexta-feira, 4 de junho, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um homem honesto numa cidade corrupta. Ou mais microscopicamente, um polícia que, ao investigar a morte de um outro polícia contra a hierarquia, expõe a organização criminosa que controla sanguinariamente a sua cidade, num combate pessoal movido pelo sentido de justiça e pela vingança. Este filme de Fritz Lang com Glenn Ford e Gloria Grahame é uma obra maior, em que a acidez da personagem de Lee Marvin, na pele do bandido a soldo, confere uma intensidade aguda à violência. Personagens, atores, câmara, diálogos e mise-en-scène num fabuloso acerto.
– The Maltese Falcon (Relíquia Macabra, 1941) – Quarta-feira, 2 de junho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro // Sábado, 5 de junho, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. A primeira obra de John Huston, adaptação de Dashiell Hammett, constrói-se como um dos primeiros noir americanos a partir do thriller e do filme urbano de gangsters, em que os anos 1930 foram pródigos, ilustrando o seu espírito e regras estilísticas: as razões que movem as personagens são obscuras, sobressaindo um ambiente de negrume claustrofóbico atravessado pela omnipresença do mal. Mortes misteriosas, ruelas noturnas e sombras ameaçadoras povoam o filme magnificamente fotografado por Arthur Edeso, que estabeleceu a persona, e o estrelato, de Humphrey Bogart. Na pele do detetive privado Sam Spade, Bogart protagoniza a intrincada história que gira à volta de uma estatueta em forma de falcão, acabando obrigado a entregar à polícia a mulher por quem se apaixona.
– The Big Sleep (À Beira do Abismo, 1946) – Sábado, 5 de junho, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Howard Hawks realizou obras-primas em quase todos os grandes géneros do cinema americano, noir incluído. A partir do romance homónimo de Raymond Chandler, com argumento assinado, entre outros, por William Faulkner, “The Big Sleep” é a quintessência do noir em que pulsa uma estética definida: ação predominantemente noturna, fotografia fortemente contrastada, jogos de luz e sombra. É ainda um dos quatro filmes da dupla Bogart e Bacall, que eletrizam o filme, pleno de apontamentos crípticos, cenas e falas memoráveis. Uma segunda exibição terá lugar a 9 de junho, quarta-feira, pelas 15h30 na Sala M. Félix Ribeiro.

