Débora Falabella, a face da resiliência contra o sexismo

Débora Falabella cruza cinema e teatro entre Pele de Rinoceronte, em Gramado, e Prima Facie, cuja adaptação com Cynthia Erivo estreia no TIFF.

No embalo da repercussão de Pele de Rinoceronte, de Marcello Ludwig Maia, no 54.º Festival de Gramado, Débora Falabella vive um momento particularmente forte em duas frentes: no cinema, a sua interpretação da repórter Helena, ao lado de Naruna Costa, vem sendo apontada como uma das grandes forças da competição gaúcha; no teatro, a atriz continua a percorrer o Brasil com Prima Facie, solo dirigido por Yara de Novaes e escrito pela australiana Suzie Miller, que já ultrapassou 150 mil espectadores e acumula prémios como Shell, APCA, Arcanjo e APTR. A coincidência ganha uma dimensão internacional especial porque o mesmo texto que Falabella vem levando aos palcos chega agora ao cinema com Cynthia Erivo, que interpreta a advogada Tessa na adaptação realizada por Susanna White, com estreia mundial marcada para o Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF), de 10 a 20 de setembro.

Em Gramado, Pele de Rinoceronte tornou-se um dos filmes mais comentados da competição brasileira ao articular a investigação de uma repórter de jornal popular, interpretada por Falabella, com a trajetória da advogada criminalista Maria Thereza, interpretada por Naruna Costa, a partir de um homicídio que remete ao caso Ângela Diniz (1944-1976), modelo assassinada pelo namorado, Doca Street (1934-2020), que usou a sua fortuna para tentar ficar impune. A força da dupla está justamente na complementaridade: Helena é a mulher que observa, investiga e regista uma violência que o seu tempo ainda não sabia nomear como feminicídio, enquanto Maria Thereza ocupa o espaço da palavra jurídica e da disputa institucional. O filme de Marcello Ludwig Maia, que estreou em Gramado este mês, encontrou nas duas atrizes o seu principal eixo de tensão e tornou a dupla uma candidata natural às atenções na corrida pelos prémios de interpretação.

O sucesso de Prima Facie ajuda a iluminar a escolha de Falabella para Pele de Rinoceronte. A montagem brasileira estreou em 2024 como o primeiro solo teatral da atriz e rapidamente se transformou num fenómeno de público, com temporadas esgotadas no Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais, além de passagens pelo Festival de Curitiba. Em cena, Falabella interpreta Tessa, advogada criminalista que constrói a carreira defendendo homens acusados de violência sexual e que, depois de ser vítima de violência, passa a confrontar as estruturas jurídicas nas quais depositava a sua confiança. O espetáculo nasceu em Londres em 2022, com texto de Suzie Miller, chegou ao West End, à Broadway e a dezenas de montagens internacionais; a versão cinematográfica mantém Miller como argumentista e tem Susanna White na realização.

Falabella, aliás, fala de Prima Facie sem o tratar como um capítulo encerrado. “Tenho muita vontade de fazer temporadas populares, que ainda não conseguimos fazer, porque é uma peça que, apesar de ser este sucesso, está sem patrocínio”, afirma. Para ela, o êxito comercial não elimina a necessidade de ampliar o acesso a um espetáculo que considera importante justamente por tratar da violência contra as mulheres e do funcionamento da Justiça. “A peça é realmente um sucesso por onde passa, enchemos os teatros, e queríamos levá-la a cada vez mais gente. Sabemos que nem toda a gente consegue pagar um bilhete”, diz a atriz, que cita entre os seus desejos uma grande temporada popular no Rio de Janeiro e em São Paulo e novas passagens por cidades do Nordeste e pelo interior paulista.

O próximo compromisso confirmado de Falabella com Prima Facie será justamente em São Paulo: o espetáculo abrirá a primeira edição do Festival de Teatro de São Paulo, de 1 a 3 de setembro, no BTG Pactual Hall, marcando as últimas apresentações da montagem em 2026. A programação do novo festival, que decorre até 27 de setembro e reúne 22 espetáculos, inclui ainda debates, encontros e oficinas.

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