Já adaptado ao cinema em 1985 por Héctor Babenco, com William Hurt (vencedor do Oscar) e Raul Julia no elenco, Kiss of the Spider Woman (O Beijo da Mulher-Aranha) parte do romance homónimo de Manuel Puig, publicado em 1976. Quatro décadas depois, a história regressa ao grande ecrã numa nova versão musical inspirada numa peça homónima da Broadway, com música de Kander e Ebb (Cabaret, Chicago), realização de Bill Condon (Dreamgirls) e protagonismo de Diego Luna e Tonatiuh.

Ambientado na Argentina durante a ditadura militar — o auge da chamada Guerra Suja, um regime de repressão marcado por desaparecimentos forçados, tortura e terrorismo de Estado — o filme mantém a essência do encontro improvável entre dois presos: Molina (Tonatiuh), uma figura trans em sintonia com a visão de Manuel Puig, que via no personagem a luta interna de cada homem pela libertação da feminilidade aprisionada, detido por “atos de degeneração”; e Valentín (Diego Luna), um ativista político, que representa a hiper-maculinidade e que não se cansa de falar da namorada que deixou para trás e a quem nunca disse que amava. A junção dos dois numa cela não foi ao acaso. O diretor da prisão (Bruno Bichir) envia Molina para a cela de Valentín por motivos estratégicos, esperando que ele extraia informações do ativista. Essa duplicidade revela-se igualmente na história da sedutora Mulher-Aranha, que Molina sempre evoca com a sua arte de contar histórias.

Embora o nome de Jennifer Lopez — que brilha em três papéis como Ingrid Luna, Aurora e a sedutora Mulher-Aranha — domine já as campanhas para os Óscares e Globos de Ouro, é Tonatiuh quem rouba todos os holofotes. A sua atuação encarna uma jornada de autodescoberta e de escape à violência da detenção: Molina refugia-se no cinema clássico como abstração e fuga, mas também como afirmação da sua identidade. Aos poucos, através das histórias que narra a Valentín, que considera que ele não se valoriza nem vê os mecanismos de opressão mental capitalista a que está encerrado. Entre os dois, progressivamente e com muitas discussões à mistura, nasce uma ligação que ultrapassa a política, fundada principalmente na lealdade, no respeito e, por fim, no amor.

Condon equilibra o brilho do Technicolor do “filme dentro do filme” com a crueza do realismo na prisão, usando a sua forma musical ora como arma de resistência, ora como ferramenta de alienação. 

Identidade, sexualidade, marginalização e poder sempre foram temas centrais na obra de Bill Condon — de Gods and Monsters (1998) a Kinsey (2004), de Dreamgirls (2006) a Beauty and the Beast (2017). Em Kiss of the Spider Woman (2025), ele mergulha no fulgor dos grandes musicais do cinema clássico para tecer uma ponte entre fantasia e realidade, com o companheirismo, sacrifício e resistência a unir duas figuras distintas com o mesmo destino. Molina e Valentín são opostos no mundo interior em que se fecham e nas motivações que os movem — um refugia-se no sonho de glamour e fantasia do celuloide, o outro na luta política. É, porém, na prisão e opressão que encontram um propósito comum: sobreviver com dignidade.

Embora tenha a sua faceta de homenagem aos musicais dourados de Hollywood, esta nova adaptação — que mostra competência, mas não atinge o patamar do notável — é principalmente um olhar sobre identidade de género, amor entre excluídos e a resistência dolorosa sob a presença de regimes de opressão. Tem vida própria, além do material original e da adaptação 1985, e só por conseguir isso — numa era de dependência e reciclagem cinematográfica — merece uma olhadela, especialmente para os fãs de musicais.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
kiss-of-the-spider-woman-entre-a-fantasia-e-a-opressaoMais do que uma homenagem aos musicais dourados de Hollywood, esta nova adaptação — que mostra competência, mas não atinge o patamar do notável — é um olhar sobre identidade de género, amor entre excluídos e a resistência dolorosa sob a presença de regimes de opressão.