Se o universo em questão numa narrativa documental é o exercício da religião, como se vê em “Apocalipse nos Trópicos”, cabe em qualquer análise que se faça dele espaço para Santo Aurélio Agostinho de Hipona (354-430), sobretudo a partir de uma frase: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”. A nova longa-metragem de Petra Costa indigna o ver a filosofia de ódio que se expandiu pela sua pátria, o Brasil, sob o disfarce do Evangelho. Sabe, ao mesmo tempo, ser corajosa o suficiente para não condenar quem crê, nem acusar a massa de fiéis que integra a comunidade cristã do país. De modo autoral, o interesse da realizadora parece estar em outro lugar… um lugar do afeto… ainda que vasculhe por meio de um dispositivo cartográfico que mapeia os discursos de controlo.
Por caminhos muito inusitados, sempre surpreendentes, o cinema de Petra está sempre a falar do amor, assuma ele a forma que for, seja a fraternidade (“Elena”), a maternidade (“Olmo e a Gaivota”) ou a vida a dois (“Olhos de Ressaca”). Nomeado ao Oscar da não ficção, “Democracia em Vertigem” (2019) trazia, na sua essência de filme denúncia, a centelha de carinho por um país que abraçava o rancor, polarizado.
Fruto do que parece ser uma fase explicitamente politizada da cineasta, “Apocalipse nos Trópicos”, projetado no Festival de San Sebastián, na reta final do evento basco, após uma elogiada passagem por Veneza, também fala de “amar”, ao tornar elástica uma premissa essencial às doutrinas religiosas (pelo menos a maioria delas): querer o bem do próximo como se quer a si mesmo. Uma das perplexidades de onde parte a dramaturgia desse novo documentário de Petra é a percepção de que não se prega mais a comunhão amorosa nos discursos do cristianismo que tomaram conta do Brasil na última década e levaram Jair Messias Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Onde foi parar esse amor? Eis a pergunta que humaniza a película.
Com os pés fincados na História (a mais recente), o fita passa, obrigatoriamente, pelo ciclo da eleição presidencial, o mandato e o fim do governo bolsonarista (2018-2022), com espaço ainda para falar da prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, o atual líder daquela pátria. Esses factos estão todos lá, a vincularem trâmites governamentais a uma cartografia do avanço evangélico na América do Sul. Não se trata de tratado um sobre a fé, mas, sim, de um filme sobre guerras discursivas e estratégias de ocupação territorial. Estratégias pautadas sob acusações e sensos morais que evocam o nome do Cristo, Jesus, para falar de posse, de ordem, mas não mais para falar do benquerer. Estratégias que encontram uma tradução nos ideais do pastor Silas Malafaia, que funciona como a personagem central da produção.
Malafaia é um televangelista e escritor que encontrou no bairro da Penha, no subúrbio do Rio de Janeiro, um quartel-general para disseminar a sua pregação, ampliada pela presença em médias eletrónicas e digitais. “Apocalipse nos Trópicos” vai e volta a ele na sinuosa montagem de Victor Miaciro, Jordana Berg, David Barker, Tina Baz, Nels Bangerter e Eduardo Grippa, o que nos garante um olhar panóptico da indústria simbólica cristã. Essa perspectiva foucaultiana imuniza o filme do risco de forjar tipificações. Num roteiro dialético (que assina com Alessandra Orofino, em colaboração com Nels Bargenther e David Barker), Petra jamais define Malafaia como profeta, como um oráculo. Cada vez que lhe oferece a palavra, ou resgata imagens de arquivo dos seus sermões, ela mostra a sua conexão retórica na construção da ideologia de um Brasil conservador, anticomunista acima de tudo, que necessita da crença alheia em Deus para abrir espaço nas bancadas do Poder. Malafaia é um estadista na Terra Santa que criou para si através da evangelização. Ele é um signo de força num processo de sedução dos pobres, na oferta de respostas simplificadoras, nas quais o Diabo é a causa do desemprego.
Numa fala iluminadora, Lula expõe uma das fraquezas do regime de esquerda, responsável pelo levante de Malafaia, ao dizer: “O que levou o socialismo ao fracasso foi a negação da religião”. Só esse diálogo já tornaria a longa-metragem imperdível, como documento de uma época, como um sintoma de inquietação, como um alerta para uma estrutura que ainda está aí, no Brasil e além dele, bem armada, à espera.




















