Lançado em 2019, com um registo que o tornava difícil de catalogar, Scales (Sayyedat al-Bahr), a primeira longa-metragem da saudita Shahad Ameen, contava a história de uma aldeia de pescadores cuja tradição exigia o sacrifício de meninas — lançadas ao mar — para apaziguar criaturas marinhas, uma forma de sereias, que a povoavam. O objetivo era permitir que a comunidade continuasse a explorar o mar, transformando o sacrifício feminino numa alegoria que chegava à contemporaneidade. É nesse mundo que a jovem Hayat, que escapou a esse destino, lutava pela aceitação e pela sua identidade, enfrentando o pai e a aldeia — num claro retrato crítico do peso da tradição e da opressão patriarcal sobre o feminino.
Seis anos depois, Shahad Ameen regressa mais madura, mais afirmativa e igualmente eficaz. Troca o preto e branco pela cor, a atemporalidade pela contemporaneidade (anos 2000) e a fábula mitológica pelo drama realista de veia espiritual. Em Veneza, na secção Spotlight, apresenta com fulgor Hijra, uma meditação sobre a liberdade feminina e a reconciliação entre gerações.
Mantendo o olhar atento sobre o destino das mulheres e os rituais sociais e religiosos que moldam as suas vidas — muitas vezes retirando-lhes a individualidade —, a cineasta embarca agora numa road trip intergeracional pelas paisagens sagradas do Hajj, pilar do Islão. Acompanhamos uma avó, que em tempos fugiu da sua terra natal, e a sua neta — em busca da sua voz — que partem à procura da irmã desta, também ela fugida. São três gerações e diferentes conceitos de liberdade que Ameen procura explorar numa viagem que, além de geográfica, é sobretudo espiritual e de reconciliação.
Equilibrando as raízes árabes (rituais, desertos, Hajj) com uma linguagem cinematográfica universal — em diálogo com o cinema das road trips, o coming of age e o western —, a realizadora introduz no percurso das duas mulheres um fora da lei típico da história do cinema, seja no velho Oeste, seja no Oriente (um ronin caído em desgraça, em busca de identidade e liberdade). Mais uma vez, são as mulheres que movem a narrativa, apesar do fosso geracional que as separa, enquanto os homens oscilam entre a dureza que a tradição lhes impõem e a fragilidade que a modernidade os liberta. E, numa ligação à migração do Profeta Maomé e dos seus seguidores de Meca para Medina em 622 d.C., emerge o tema da migração (hijra, do título), associado sobretudo à vida da mulher mais idosa e ao seu passado, mas refletido igualmente na viagem espiritual e interior que acompanhamos em cena.
Entrelaçando memória e realidade num país que avança a ritmos distintos consoante as gerações e géneros, Hijra afirma-se como um belíssimo exemplo de cinema de transformação, onde a paisagem geográfica (filmada em localidades reais como Taif, Jeddah, AlUla e Tabuk) e a paisagem emocional se cruzam e dialogam, conduzindo a um processo de crescimento pessoal das personagens e, em consequência, coletivo.



















