Há uma fala em Tootsie (1982) na qual Dustin Hoffman sintetiza a ansiedade de quem não tem um salário fixo a entrar todos os meses: “Não acredito no Diabo, acredito no desemprego.” Essa manifestação mais terrena do pavor ganha um colorido romanesco em À Pied d’Oeuvre, que valeu a Valérie Donzelli o prémio de Melhor Argumento em Veneza, na luta pelo Leão de Ouro, e segue agora para mostras não competitivas em Marrocos (o Festival de Marraquexe) e na América do Sul (Festival do Cinema Francês do Brasil), ampliando o seu prestígio e ventilando as hipóteses de chegar aos Césares. Bastien Bouillon impõe-se como escolha quase inevitável de França para as nomeações a prémios locais pela composição sem qualquer ortodoxia da personagem Paul Marquet. O aspeto mais fascinante do trabalho que desenvolveu em diálogo com Donzelli foi blindar Marquet contra qualquer piedade que o público pudesse sentir perante a sua penosa trajetória de afirmação literária, gesto que contraria os desígnios básicos do chamado “heroísmo do rendimento”, corrente dramatúrgica particularmente em voga em 2025, da qual o filme faz parte.
A raiz desta linhagem narrativa encontra-se num romance do século XIX: Germinal (1885), de Émile Zola (1840-1905). Foi esse livro que abriu a comporta dramatúrgica de uma vertente sociológica centrada em tramas cuja jornada das personagens se constrói a partir de estratégias de sobrevivência económica. Nesse território cabe tudo, de Chaplin a Rocky Balboa, com amplo espaço para as figuras trabalhadoras de Ken Loach, Costa-Gavras ou Stéphane Brizé. Não é invulgar que este procedimento temático seja associado tanto às leituras marxistas da luta de classes como a modelos funcionalistas que comparam a sociedade a organismos biológicos. Nessa mesma pulsação, há ainda lugar para influxos do naturalismo, corrente híbrida entre arte e ciências sociais que representa espaços como se fossem vísceras abertas, com as suas escatologias e dinâmicas de excreção. Essa veia naturalista é visível em Parasitas (2019), marco incontornável, e também no recente The Running Man, de Edgar Wright, um dos títulos mais transgressores de 2025.
Neste mesmo ano, a linhagem do “heroísmo do rendimento” inspirou No Other Choice, de Park Chan-wook, e Nó, de Laís Melo. Em anos recentes, o mesmo conjunto de princípios dramatúrgicos alimentou experiências anglo-portuguesas e luso-escocesas sobre a submissão de mulheres de origem ibérica ao rolo compressor laboral do Reino Unido, com todas as suas engrenagens de exclusão, como Listen (2020), Great Yarmouth: Provisional Figures (2022) e On Falling (2024).

O que assegura algo de inusitado a À Pied d’Oeuvre é que as violências mais selvagens do seu guião não são oriundas do dito “trabalho braçal” em que Marquet se impõe, mas, sim, do enfarpelado mundo intelectual ao qual ele ambiciona pertencer pelas vias da palavra. Mesmo na descrição feroz desse segmento mercadológico da França atual, o argumento de Valérie e Gilles Marchand não é maniqueísta. O desconforto que sentimos diante das “verdades” vomitadas pela editora Alice (Virginie Ledoyen) à personagem de Bastien Bouillon não a torna má, apenas excessivamente franca, com a perceção de que franqueza e crueldade podem ser sinónimos.
O ponto é… para os padrões do mercado literário dos anos 2020, assolado por causas e lutas identitárias, Marquet não tem nada a oferecer, por melhor que escreva. Nasce aí, e de modo elegante, a primeira (e mais do que bem-vinda) crítica da nova longa-metragem da realizadora de Marguerite et Julien (2015) e Notre Dame (2019): quem é que tem direito à voz na arte do nosso tempo? Pior do que isso: por que, na arte, haveria de existir essa noção de “legitimidade”, que, de algum modo, pode ser excludente? Tais perguntas brotam quando Alice estraçalha a veia narrativa confessional do seu “talento”, ao condenar a sua escolha de falar de um amor perdido — e ainda doloroso.
A segunda crítica de Valérie aplica-se uma vez mais ao universo da intelligentsia do Velho Mundo. A intelectualidade trata com exotismo o facto de um artista visual (Marquet era fotógrafo… e de peso) aceitar tarefas de empreitada — como fazer obras como pedreiro, a 18 euros por missão, ou executar mudanças — em vez de se concentrar num conforto burguês de criação (ou exploração da força alheia) sem esforço algum. Que delito há nesse interesse por ofícios em que se sujam as mãos (literalmente) e se sua a camisola? O próprio verbo “sujar as mãos” já carrega em si, para além da literalidade, uma dimensão pejorativa.
Em meio a esse debate, numa estrutura de edição ágil, muitas vezes silenciosa, sem o uso omnipresente de banda sonora (composta por Jean-Michel Bernard), Valérie incorpora para si um procedimento de prosa próprio da arte do conto e do romance, uma vez que Marquet “epiciza” o que se passa com ele, ou seja, narra, numa camada sonora paralela, em comentários abrasivos em primeira pessoa, o que se passa consigo, como se construísse, paralelamente ao que vemos, um “épico da classe operária”, na qual se encaixa à força, na batalha para sobreviver enquanto escreve… mesmo sem ser publicado ou sem alcançar o sucesso esperado.
A opção de Irina Lubtchansky, na direção de fotografia, por uma luz sem rebuscamento, por vezes confere uma essência documental aos planos de À Pied d’Oeuvre, sobretudo nas sequências em exterior. Em interiores, a iluminação é mais cálida. É aí que Valérie aplica a sua dialética também a Marquet, criticando a vaidade que ele encobre sob um sonho artístico.




















